Morre José Pedral Sampaio, ex-prefeito de Vitória da Conquista

Aos 89 anos, Sampaio lutava contra um câncer

Faleceu no início da tarde desta terça-feira (16), um dos principais nomes da história recente de Vitória da Conquista. José Fernandes Pedral Sampaio administrou o município entre 1963 e 1964, quando foi cassado pela Ditadura Militar e posteriormente de 1983 a 1987, de 1989 a 1989 e de 1993 a 1996.

Em agosto de 2013, na instalação da Comissão Municipal da Verdade, o ex-prefeito teve seu mandato simbolicamente devolvido. Na ocasião o atual prefeito Guilherme Menezes afirmou que o mandato do ex-prefeito conseguido de forma majoritária foi roubado de forma arbitrária.

O corpo está sendo velado na Casa Memorial Régis Pacheco na Praça Tancredo Neves e o sepultamento ocorre no final da tarde desta quarta-feira. As aulas das escolas municipais foram suspensas, assim como as atividades de campanha dos candidatos ao governo da Bahia programadas para hoje (17) e amanhã (18).

Histórico

Fonte: Taberna da História

José Pedral na instalação da Comissão da Verdade de Vitória da Conquista

José Pedral na instalação da Comissão da Verdade de Vitória da Conquista

José Pedral era neto do coronel José Fernandes de Oliveira, conhecido como Coronel Gugé, também líder político por quase 20 anos. Nasceu na residência desse coronel, situada na Praça Barão do Rio Branco, no dia 12 de setembro de 1925, sendo seu parteiro o médico Régis Pacheco, que futuramente seria seu padrinho político.

Filho do engenheiro Sifredo Pedral Sampaio e de Dona Maria Fernandes Pedral Sampaio, foi diplomado engenheiro civil no dia 11 de novembro de 1949 pela Escola Politécnica da Universidade da Bahia. Fixou-se em Vitória da Conquista a partir de 1954, com escritório de engenharia na Empresa “Construtora Prumo”. Como engenheiro deixou suas marcas em prédios conhecidos como o Colégio Sacramentinas e o Clube Social Conquista.

Lançou-se na política em 1958, quando perdeu as eleições de prefeito para Gerson Salles. Teve uma expressiva votação neste pleito e se credenciou como uma alternativa para a oposição nas próximas eleições. Em 7 de outubro de 1962, apoiado pelo PSD (Partido Social Democrático) de Régis Pacheco e MTR (Movimento Trabalhista Renovador – de Fernando Ferrari), venceu facilmente seus adversários Jesus Gomes dos Santos (da UDN), Hugo de Castro Lima (do PTB) e Jorge Stolz Dias (do PSP), obtendo votação superior aos três candidatos juntos.

Em Vitória da Conquista, as ideias de “Reformas de Base” de João Goulart alcançaram repercussão. Na década de 60 eram aqui discutidas e se fizeram acompanhar de movimento mobilizador. Os bancários realizaram greve. Os pedreiros fundaram seu sindicato. Os estudantes organizaram seus grêmios e deu-se início ao movimento estudantil na cidade.

A polarização nacional repercutia em Vitória da Conquista e aqui se acentuou quando João Goulart assinou o decreto da Reforma Agrária, tímida medida de desapropriação de áreas ao longo das rodovias federais. 

Pedral assumiu a prefeitura em 7 de abril de 1963 e governou o município até 6 de maio de 1964. Na sua curta administração de 13 meses realizou as seguintes obras: construção de chafarizes no Alto Maron e bairro de Olavo; calçamento da Rua do Triunfo; arborização e calçamento da Praça Sá Barreto; convênio com a Coelba, transferindo a esta a antiga “Empresa Municipal de Energia Elétrica”; e calçamento da Rua Plácido de Castro.

Durante sua primeira gestão, Pedral transformou o prédio do antigo “Quartel de Polícia” na atual Prefeitura, e comprou o sobrado de Manoel Fernandes dos Santos Silva , transformando-o no “Fórum João Mangabeira”. Promoveu ainda a ampliação da Praça da Bandeira com desapropriações e pavimentações, dando-lhe o nome de “Praça Dino Correia” (onde foi construído o Conjunto Comercial do Mercadão na administração de Fernando Spínola).

Em 1º de abril, veio o Golpe Militar, encurtando o primeiro mandato de Pedral a modestos 13 meses. Os vereadores opositores a José Pedral e pró-ditadura fizeram aprovar na Câmara Municipal uma proposição convidando a 6ª Região Militar para uma visita ao município “para apuração de fatos”. Desembarcou na cidade, no dia 5 de maio de 1964, a força-tarefa repressiva comandada pelo capitão Antônio Bendochi Alves Filho, com seu ônibus do terror, estacionado na Praça Rio Branco, no centro da cidade. A delação, que cresce nesses momentos, economizou esforços do capitão.

No dia seguinte, 6 de maio, as prisões tiveram início, auxiliados pelo despudor da delação. Para um ônibus, estacionado na praça Barão do Rio Branco, no centro da cidade, eram conduzidos os prisioneiros. Dali foram levados às celas do Batalhão de Polícia (o ex-9º BPM), onde eram interrogados, respondendo a IPM – Inquérito Policial Militar, sob supervisão do sr. Antônio Bendochi Alves Filho, capitão do Exército.

Nesses primeiros dias, tendo o ônibus da Praça Rio Branco como quartel-general e centro de triagem, José Pedral foi preso, junto com outros nomes como Franklin Ferraz (juiz trabalhista), Reginaldo Santos (diretor do jornal “O Combate”) e Raul Ferraz (advogado). O prefeito teve seus direitos políticos suspensos por 10 anos, prorrogados por mais 10.

Em 1982, após cumprir 20 anos de suspensão, candidatou-se pela legenda 1 do PMDB e, disputando o cargo de prefeito com Sebastião Castro, Ruy Medeiros e Margarida Oliveira, foi eleito. As obras de infraestrutura que fez neste mandato, Conquista usa até hoje, como as feiras do Ceasa e do bairro Brasil e o terminal de ônibus da Lauro de Freitas.

Na década de 80 tornou-se o maior líder político de Conquista até então, ao coordenar a campanha política de Waldir Pires para o Governo do Estado em 1986, derrotando o candidato de Antônio Carlos Magalhães, Josaphat Marinho. Em 1987 assumiu a Secretaria Estadual dos Transportes. Waldir Pires renunciou do cargo de governador, deixando nas mãos de Nilo Coelho, o qual exonerou Pedral da Secretaria de Transportes.

José Pedral retornou à Prefeitura em 1988, se reelegendo em 1993.  Esta última gestão ficou marcada por salários do atrasados, fornecedores sem receber e lixo a recolher. Completamente diferente de sua administração anterior, quando construiu a maioria dos equipamentos que está aí até hoje na cidade, abrindo espaço para a chegada de Guilherme Menezes, o líder político de Conquista na primeira década do século XXI.