Monique Evelle: “É impossível hierarquizar nossas opressões”

A baiana é fundadora do projeto Desabafo Social, que atua na área de Direitos Humanos da Infância e da Juventude, com mais de 52 voluntários espalhados pelo Brasil

Monique Evelle é soteropolitana e moradora do nordeste de Amaralina. Em 2011, com apenas 16 anos, a baiana criou o Desabafo Social, uma rede composta por jovens e adolescentes, espalhados por treze estados brasileiros, que atua na área de Direitos Humanos da Infância e da Juventude, através de atividades de Educomunicação.

Monique também é estudante do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades com ênfase em Política e Gestão da Cultura na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e foi citada, no ano passado, como uma das mulheres brasileiras apontadas com um futuro promissor e uma das 25 negras mais influentes da Internet brasileira.

A estudante conta que a partir do momento em que percebeu que estava sendo silenciada, começou a pensar que haviam outras pessoas na mesma situação. “A única forma que eu consegui enxergar para reverter esse quadro, foi compartilhar o pouco que sei e aprender o muito que falta. Então comecei a dialogar sobre direito humanos, com recorte racial e gênero, tanto nas ruas, quanto nas escolas”, explica.

A ideia do Desabafo Social surgiu quando ainda era estudante do ensino médio, como um projeto do grêmio da escola em que estudava. Posteriormente, as ações foram levadas para fora do ambiente escolar. Em março de 2014, o Desabafo Social ganhou o Prêmio Protagonismo Juvenil pela Associação Brasileira de Magistrados, Promotores de Justiça e Defensores Públicos da Infância e Juventude. Em 2015, foi selecionado para a Conferência do Mapa Educação, realizado em Brasília.

Com este reconhecimento, a estudante se diz feliz. “É muito lindo ver isso! Algumas pessoas pensam que tudo vem por conta da sorte e não tem noção do que está por traz de todo um trabalho. São noites sem dormir, são horas e horas trocando ideias com uma única pessoa, são choros, são alegrias. É uma montanha russa de sentimentos. Isso traz muito mais responsabilidade para o trabalho que o Desabafo vem desenvolvendo e mostra para nossas irmãs e irmãos pretos que não estamos sozinhos”, conta.

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Foto: Desabafo Social

Atualmente, cerca de 52 voluntários estão envolvidos na rede. “Não sei mensurar em números quantas crianças e adolescentes o projeto atinge. Quando realizamos ações nas ruas, cada atividade alcança umas 20 a 30 crianças e adolescentes, e na escola umas 40 a 50. Realizamos, em média, cinco ações presenciais por mês. Acredito que seja um boa quantidade, além dos internautas”, detalha. “Eu recebo muitos depoimentos. Uns tristes outros que arrancam sorrisos. Mas os tristes são dos que as pessoas passaram até aquele momento e depois que começaram a acompanhar o Desabafo Social, algumas coisas foram mudando. Por exemplo, começaram a identificar o relacionamento abusivo, entenderam que racismo não é bullying, que o machismo mata, timidez é diferente de silenciamento e outras questões também. As transformações são pequenas. Mas vem sempre de dentro pra fora, então os resultados são maiores e inesperados”, afirma.

Mas as ideias de Monique não pararam por aí. Ainda em 2015, o Desabafo Social desenvolveu a Ubuntu, uma rede social que conecta pessoas como qualquer outra, mas com foco na colaboração e multiplicação de ideias. “A Ubuntu além de ser uma rede social é um gerenciador de tarefas. Possui a wiki, onde todas pessoas do espaço podem escrever ao mesmo tempo, delegar tarefas, calendários e outras ferramentas. Então isso possibilita concentrar nossa atenção e aumentar nossa produtividade em um só espaço. Alguns coletivos estão utilizando muito como gerenciador de tarefas e outras pessoas como uma rede social de aprendizagem mesmo”, explica Monique.

Já em 2016, foi a vez do lançamento da loja virtual Kumasi, gerida juntamente com Lucas Santana e sua mãe, Neuza Nascimento. O empreendimento reúne marcas criadas por negros e negras que recebem apoio logístico e treinamentos em gestão para alavancarem seus negócios. “A Kumasi surge para mostrar que preto e dinheiro não são palavras rivais. Nossa ideia é formar uma rede de empreendedores negros, inicialmente de Salvador, para potencializar nossos negócios e fazer o capital circular e retornar para comunidade negra. Não dá pra ficar achando que somos a maioria dos empreendedores no país, sendo que ganhamos ainda menos que os não negros (R$ 1.039 por mês) e nossa área de atuação é de ambulante, catadores etc.”, afirma Monique.

Em meio a tantos projetos, Monique Evelle dá seu recado e também levanta a bandeira de uma luta muito importante: contra o machismo. “Nós mulheres, estamos juntas na luta contra o machismo. Nós mulheres negras, estamos juntas na luta contra o machismo e racismo. O que eu quero dizer é que é impossível hierarquizar nossas opressões. Espero muito que as pessoas entendam isso”, desabafa.

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Foto: Kumasi

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