Marcelo Benigno: “Não queremos fazer arte só pra entreter as pessoas. A arte pra gente é formação, criação e consciência”

O ator conquistense foi o único baiano selecionado para participar de uma das performances que abriram a Exposição Terra Comunal, da artista performativa Marina Abramovic, em São Paulo

Foto: Óli de Castro

Marcelo Benigno é conquistense, professor de Teatro, ator e performer, formado pela Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (Ufba), tendo sido um dos fundadores do grupo Caçuá de Teatro em Vitória da Conquista.

O ator foi o único baiano selecionado para participar de uma das performances que abriram a Exposição Terra Comunal, da artista performativa Marina Abramovic, no Sesc Pompeia em São Paulo. “Transmutação da Carne”, de autoria de um outro artista baiano, Ayrson Heráclito, ganhou destaque entre as oito apresentações realizadas no decorrer do evento.

A Revista Gambiarra conversou com Marcelo Benigno que falou sobre a experiência, o Teatro na Bahia, especialmente no interior, além do grupo Caçuá que completa 17 anos em 2015. Confira:

Ana Paula: Como se deu o primeiro contato que o levou a participar da abertura da Exposição Terra Comunal?

Marcelo Benigno: No início de fevereiro, aconteceu uma chamada pública para participar da performance “Transmutação da Carne”, de autoria do também conquistense Ayrson Heráclito, que abriu a exposição Terra Comunal. Nessa exposição participaram oito performers brasileiros com seus trabalhos, entre eles o de Ayrson, que fez a abertura. Os outros sete participaram no decorrer da exposição, que se encerrou no dia 10 de maio.

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“Transmutação da Carne”, do artista conquistense Ayrton Heráclito, foi apresentada pela primeira vez em 2000, na cidade de Salvador e reapresentada sob forma de video instalação em 2005, em Koblenz, na Alemanha/ Foto: Danielle Rosa

Essa performance foi apresentada pela primeira vez em Salvador. Dessa vez, eu fui o único baiano entre  os cinquenta que participaram da apresentação que abriu a Exposição da Marina, em São Paulo. Foi maravilhoso. O trabalho dele é bastante voltado para a identidade negra, também um pouco da nossa cultura baiana. Foi incomensurável ter participado e estar dentro daquele evento, o Sesc Pompeia fez uma mega exposição. Foi um presente dos Orixás mesmo.

A.P.: Como foi sua trajetória junto ao Grupo Caçuá de Teatro?

M.B.: O Grupo Caçuá veio de um grupo de Teatro da Uesb, que era um projeto de extensão da universidade em Conquista. Desde 1992, eles tinham um projeto chamado Grupo de Artes da Uesb (Teatro, Dança, Capoeira e Canto Coral). Antes de mim, nesse teatro tinha Sônia Leite, que coordenou esse grupo. Em 1996, participei como ator. Eu fazia Letras aqui na Uesb, fiquei um ano fazendo esse trabalho com Sônia. Como era um projeto de extensão e não tinha vínculo, era contrato, então fazia um contrato e renovava, e aí não podia fazer mais, eles abriram uma nova seleção. Passei pra ser o professor de Teatro em 98, nesse período estava em cartaz em São Paulo aos fins de semana, e ia e voltava toda semana de ônibus, durante todo ano de 98. Em 2002, a nova reitoria da universidade suspendeu e acabou com o Projeto de Extensão Grupos de Arte da Uesb. Dessa ruptura, nasceu o grupo Caçuá de Teatro, de forma independente.

A.P.: Como você enxerga o Teatro na região?

M.B.: A gente sempre teve uma ligação muito forte com Salvador, embora sendo daqui, o próprio Caçuá, a maioria a gente conseguiu levar para a Escola de Teatro e voltar, então essa galera toda que saiu daqui de Conquista em 2000, passou pelo Caçuá. Nós conseguimos levar dez atores do Grupo Caçuá para a Escola de Teatro da Ufba, daí veio o Finos Trapos, etc. Então a gente conseguia fazer esse intercâmbio, Conquista e Salvador, capital e interior, para tentar desmistificar um pouco essa coisa de que só a capital produz.

A nossa produção é tão boa quanto a da capital, só que não tem muita visibilidade, falta divulgação. O que falta também é apoio. Quando a gente vai para a capital, a produção artística é iminente, ela está inserida na vida cotidiana das pessoas. Quando você vai para o interior, essa difusão é pequena, pois não há uma política cultural de fomento à cultura. Então, os artistas sofrem com isso. Minha vida toda que eu transitei entre Salvador e Conquista, a gente sempre brigava por políticas públicas, espaço, formação. Se o artista não possui nenhuma espécie de apoio, de fomento, ele acaba não movimentando a própria comunidade que se beneficia pelo trabalho.

Quando o Caçuá surgiu ainda não havia o curso de Teatro da Uesb em Jequié. Então, a gente fomentava essa região toda. Com o reconhecimento, a gente indo pra Salvador, passando em editais, mostrávamos nossa produção. Conquista tem uma produção muito grande até a nível de plateia, todos os grupos que estão em circulação querem vir pra Conquista, pois ainda hoje é um polo muito bom para formação de plateia.

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Auto da Conquista, do Grupo Caçuá de Teatro/ Foto: Acervo Pessoal.

A.P.: Em que a dificuldade em dialogar com o poder público, tanto na esfera municipal, quanto na esfera estadual, influencia na produção artística?

M.B.: Toda essa dificuldade atual, com o Centro de Cultura fechado há dois anos, a gente não tem um teatro local, pois o Teatro Carlos Jehovah é pequeno, não dá pra receber certas produções. Então, a cidade parou. A classe artística só produz efetivamente quando trabalha e sem trabalho essa classe não vive e não tem visibilidade. Esse prêmio para o interior (o Grupo Olaria, de Jequié, ganhou na categoria Espetáculo do Interior no Prêmio Braskem de Teatro) é uma grande visibilidade, para não ficar aquela velha revelia de quem está no interior é o caatingueiro, sem informação, porque infelizmente ainda há esse preconceito.

Quando teve o Teatro de Cabo a Rabo, que foi um projeto do Teatro Vila Velha, a gente lançou um movimento chamado Movai, Movimento  de Valorização do Artista do Interior, que questionava justamente isso: por que quem está no interior não recebe os mesmos valores que a capital? Ter um posicionamento político diante da capital, do poder público e os artistas é fundamental. Pois você não consegue mostrar o seu trabalho se você não tem um posicionamento forte. Senão fica aquele velho tipo de posicionamento de que a arte não serve pra nada. É pão e circo, acabou, É entretenimento… a arte não é entretenimento só. Não queremos fazer arte só pra entreter as pessoas. A arte pra gente é formação, criação e consciência. A Uesb quando criou o grupo Olaria, que é um grupo de pesquisa, mostra que a arte é trabalho, é pesquisa, é extensão.

Não tem como a Prefeitura não olhar. Ilhéus, por exemplo, está vivendo um período de renovação. É uma cidade menor que Conquista, que a Secretaria de Cultura está chamando a classe artística, teatro, dança, capoeira, para movimentar a região. Ou seja, há diálogo. Essa coisa de “não tem verba, não tem dinheiro”, mas o que quer dizer não tem verba? Não tem dinheiro, não vai ter diálogo? É desculpa. A gente faz muita coisa com diálogo.

A.P.: Qual foi a grande contribuição do Grupo Caçuá de Teatro para Conquista e região?

M.B.: O grupo está parado atualmente, como eu estive em São Paulo nestes três anos, tive que parar. O Caçuá contribuiu muito para a formação de novos artistas na cidade, pois  Conquista sempre teve uma tradição do Teatro. A gente estudava mesmo como um grupo de extensão, uma escola. Quando os meninos chegavam numa escola de Teatro, chegavam com um conhecimento sólido. Então, dessa época a gente conseguiu levar dez, parte desses dez formou o Finos Trapos, e outros continuaram fazendo seus trabalhos de formação. No final dos anos 90, o Caçuá movimentou a cena aqui em Conquista. A gente saía para questionar políticas públicas também. A gente fazia manifestações, para que o poder público enxergasse o artista como mobilizador da cidade. Hoje a geração mudou. Não tem como um grupo se manter sem nenhum tipo de investimento. Quando você vê uma cidade parada sem investimento, acaba criando esse êxodo dos artistas irem embora. A cidade não apoia os artistas. Parece que foi um tempo que acabou, as pessoas não questionam mais, não há estímulo. Conquista é uma cidade muito grande para se explorar.

O Caçuá trabalhava com a formação de ator, através da experiência com a cultura local, porque a gente é caatingueiro, não existe essa ideia de que a gente está na Suíça Bahiana, porque na verdade estamos na caatinga “braba” mesmo. Então a nossa inspiração é Elomar, é a roça e não só essa coisa americanizada que se tem de fora. A gente tem que valorizar nossa matriz cultural e essa sempre foi uma grande preocupação do Caçuá. Essa preocupação de experienciar novos tipos de reflexões através do teatro local, e com isso formou-se uma nova geração de artistas que contribuiu para que a cidade nessa época tivesse uma movimentação, que infelizmente hoje não tem mais.

A.P.: Há algum tipo de expectativa em voltar com o grupo?

M.B.: As pessoas sempre perguntam: “Vai fazer alguma coisa, Marcelo?”. Se tivesse um edital local… A gente sempre brigou por isso. Por que aqui em Conquista não existe um edital pra incentivar repertório de grupos de teatro locais? “Ah, vamos fazer alguma coisa com o empresariado local!”, você não consegue, é bem mais complicado. Essa visão de que a arte não é profissão ainda é muito forte. Você vê agora o Vitória da Conquista na final do Campeonato Baiano, todo mundo valoriza. Mas vamos ver o dia-a-dia desse time pra ver como é. Será que se o time não tivesse financiamento ele tinha chegado lá? Aplaudir no final é bonito, te dá identidade, mas valorizar todo este percurso, eu sempre esperei em Conquista projetos contínuos, não projetos esporádicos. Você faz o Natal da Cidade no final do ano, o povo adora, mas e aí, acabou. A gente tem que pensar nos artistas locais. Como não tem, é difícil, a classe está cansada, e a gente mal consegue se reunir. É lastimável, sinto isso na pele por ser da cidade, mas sem investimento não dá.

Assista um trecho da performance do ator Marcelo Benigno em “Transmutação da Carne”, filmado por Victor Gally (Abertura da Exposição Terra Comunal, Sesc Pompeia, 10 de março de 2015):