Mãos que resistem: Exposição “Mãos do Bruno” segue até agosto

Esculturas produzidas por jovens moradores do Bairro Bruno Bacelar, com objetivo de incentivar o conhecimento da arte indígena, estão expostas no Memorial Régis Pacheco

Por Rafael Flores

Matéria originalmente publicada na Revista Mega – 4ª edição junho de 2016

Um grupo de garotos divide a massa de argila em uma mesa improvisada em um terreno emprestado no bairro Bruno Bacelar, enquanto seu orientador Gilvandro Gonçalves Oliveira fala sobre a ancestralidade e a importância de manutenção da tradição cultural dos primeiros habitantes do planalto da Conquista.

Vando, como se apresenta, é natural da comunidade da Batalha, zona rural de Vitória da Conquista, que tem descendência nos índios sobreviventes ao massacre que deu origem à fundação da cidade. Foi lá que ele aprendeu a manusear a argila e produzir arte através dela.

Seus traços fortemente indígenas e seu olhar brilhante para a arte já apontam, mas apenas com o diálogo, percebemos nele a figura de um mestre da cultura popular. Humilde e sempre admitindo estar em eterno aprendizado, ele ainda ouve e respeita seus anciãos, absorvendo ao máximo suas vivências.

E é nessa experiência que o artista se inspira para a criação do projeto Mãos do Bruno, contemplado em 2016 com o edital da Fundação de Cultura do Estado da Bahia (FUNCEB). “Minha vontade de passar pra eles o que eu aprendi com os mestres foi um grito de resistência, algo para as gerações ocuparem e terem uma pesquisa e um embasamento pra segurar e brigar por isso”, desabafa.

Vando completa: “Se eu não passar pra essa geração a técnica que foi passada pra mim e deixar morrer, a memória conquistense morre junto e a gente não vai ter nada de referência. Muitas vezes, eu fui instigado pelos mais velhos que tinham tanto a me ensinar e devido a minha pouca informação sobre cultura, deixei passar e o pouco que eu tive se transformou em uma riqueza muito grande para mim”.

O projeto Mãos do Bruno tem como público alvo estudantes de escolas públicas do bairro Bruno Bacelar e da comunidade de Ribeirão dos Paneleiros. Todo o processo começa antes das mãos se sujarem, com uma explanação sobre a história dos povos originários, passando inclusive por um estudo das suas características físicas.

Alan Carvalho, de 20 anos, possui deficiência auditiva e motora e encontrou nas oficinas do projeto uma alternativa para desenvolver habilidades. “Minha coordenação motora melhorou muito ao fazer as máscaras”, conta. Alan diz ainda que utilizará o que aprendeu como fonte complementar de renda para ajudar a sua família.

O Bruno Bacelar é constantemente citado de forma negativa nos noticiários locais, por conta da presença constante do tráfico de drogas e da violência. Com isso, Vando reafirma a relevância do seu projeto, tanto para dentro quanto para fora do seu entorno. “As pessoas só veem violência, as pessoas não veem a cultura, não veem os artistas, nem se preocupam se aqui teria algo que  poderia marcar a história dessa cidade”, desabafa.

Foto: Rafael Flores

Foto: Rafael Flores

Desde o dia 17 de julho, o Memorial Régis Pacheco em Vitória da Conquista recebe a exposição “Mãos do Bruno”. A visitação pode ser feita até o dia 5 de agosto, gratuitamente.