Geleia Geral: O Som das Binha

A primeira JAM formada por mulheres estreia neste domingo (13), em Salvador, levantando a bandeira contra o machismo no meio musical

Por Ana Paula Marques*

Se o Brasil começou na Bahia, aqui também é onde nasce a primeira JAM formada unicamente por mulheres e com repertório feminino. Com o objetivo de criar espaços de aprendizados e trocas musicais, sem o pedantismo machista, o Som das Binha estreia em Salvador neste domingo (13), no espaço Cronópios.

Criações, pulsações e improvisações embalam a novidade. Dentre as musicistas envolvidas estão Ana Luisa Barral (Bandolinista), Laurisabel Assil (Flautista), Tita Gracille (Baterista), Vanessa Melo (Clarinetista) e Júlia Maia (Cantora).

“No Som das Binha, usamos o conceito de ciranda sonora, pois todos ritmos e experimentações musicais são abraçados. Nossa ciranda representa um campo de acolhimento na música que muitas musicistas nunca tiveram durante toda sua vida. Um espaço aberto onde podemos deixar fluir nossa criatividade sem receio de olhares maldosos e piadas machistas. Um espaço onde podemos desconstruir padrões arcaicos do tipo ‘mulheres são inimigas’, ‘trabalhar com mulheres é muito difícil’. Onde haja visibilidade da mulher como compositora, arranjadora e instrumentista”, contam as organizadoras.

Para elas, a representatividade feminina na música é fundamental para mudar os paradigmas de escolha das futuras gerações. “Podemos ser cantoras, flautistas, bandolinistas, mas também podemos ser bateristas, trombonistas, baixistas, etc. As meninas que já crescem nesse contexto, aprendem que podem ser o que bem entenderem e desejarem. Em linhas gerais, acreditamos que o nosso artevismo (Ativismo pela Arte) pode causar mudanças profundas na sociedade atual”, afirmam.

Ainda segunda elas, o machismo no meio musical começa quando se pretende determinar o “lugar da mulher na música”. “Você nunca vai ver alguém questionando o instrumento de um homem toca, chega a soar ridículo: ‘nooossa, você toca bateria mesmo?’. Mas para algumas de nós, ouvir esse tipo de indagação é quase cotidiano. Ainda hoje algumas filarmônicas não admitem mulheres”, desabafam. “O machismo mora no fato de que, quando uma mulher é inserida num contexto musical, espera-se dela determinados comportamentos. Ou então sua imagem é facilmente distorcida: ‘Joana toca bem, mas você já viu como ela bebe? Ali é porra louca!’. E quando nossa técnica musical ultrapassa a média e conseguimos algum destaque, os elogios são: ‘Binha, você toca que nem homem!'”.

som das binha

Foto: Divulgação

O grupo chama atenção também para o fato de as mulheres ganharem cachês mais baixos, menos oferta de trabalho e as compositoras e arranjadoras serem desvalorizadas. “Queremos visibilizar essas agressões cotidianas e todas as muralhas levantadas pelo machismo, colocar nossos percalços às claras de forma artística, para então proporcionar reflexão e mudança”, concluem.

A ciranda sonora acontece nos dias 13, 20 e 27 de março, das 16h00 às 19h00, no espaço Cronópios, localizado na Rua Direito do Santo Antônio, em Salvador. A contribuição será espontânea no estilo “pague quanto quiser”.

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