Geleia Geral: Não adianta nem tentar me esquecer

Como o show de Roberto Carlos ecoou em várias gerações (ou um relato pessoal sobre a experiência no Lomantão)

Por Rafael Flores/ Foto: Paula Joane

Curiosidade e vontade de presenciar um momento que seria histórico para a cidade de Vitória da Conquista: isso somado ao fato de que o cara coleciona dezenas de músicas que para mim se encaixam no top 100 das mais bonitas que o brasileiro já escreveu, me fez pagar os R$100,00 na arquibancada do Estádio Lomanto Júnior. (não sei se devo comentar que paguei para poder cobrir também, já que o credenciamento não aconteceu ou foi bem limitado).

O último show de Roberto Carlos por aqui foi realizado dezesseis anos antes do meu nascimento, portanto, esta passagem no último sábado é sim um grande acontecimento pra qualquer um que foi metralhado nestas últimas  décadas com suas canções em todos os fins de anos e novelas globais.

Foto: Paula Joane

Foto: Paula Joane

Não tenho uma relação extremamente afetiva com a realeza de Roberto, em minha casa ele não tinha muita inserção direta – apesar de meu pai chorar quando toca “Lady Laura”. No entanto, aquele disco de Bethânia “As canções que você fez pra mim” cantando a música homônima e outras da dupla Roberto/Erasmo tocou muito na minha infância e ainda é um dos meus preferidos da vida. Outro que formou meu caráter musical foi o tributo “Rei”, no qual Chico Science, Skank, Marina Lima e outros interpretam os “Lennon/Mccartney” brasileiros.

Fui com uma amiga, com quem divido momentos de grande porte da vida, como um show de U2, o qual fomos subitamente, no Morumbi em São Paulo. Conversando entre nós, chegamos à conclusão que a emoção ao entrar nos dois estádios e observar a multidão foi a mesma.

Tomamos um cravinho na barraca de Tati (aquela do reggae) na porta para encarar o frio e entramos corridos, em cima da hora marcada e não tivemos problema algum com mobilidade ou fila. Ao entrar, a orquestra que acompanha Roberto já entoava um medley e tivemos a honra de ver essa cena por trás das árvores do Lomantão, a esta altura o dinheiro investido já havia valido.

Ficamos em pé, maravilhados com o tamanho do evento e fazendo amizade com senhoras simpáticas que compraram almofadas gigantes estampadas com “RC” em letras garrafais. Bem longe das cadeiras azuis e do prefeito tirando foto com o artista, conseguimos ter uma experiência bacana dali mesmo do barranco esquerdo.

Foto: Paula Joane

Foto: Paula Joane

Não fiz muito esforço em ficar olhando pro palco, não dava pra ver muita coisa sem apelar pro telão (e eu tenho uma trava com telões, sempre acho que olhar pra eles é o mesmo que ver um DVD em casa, mesmo sabendo que não é bem assim). Minha atenção estava nas canções e no que elas provocavam na plateia e foi incrível perceber que não há outro artista brasileiro vivo que cause o que observei.

O setlist teve espaço para as mais clássicas, como “Emoções”, “Olha, “Como é grande o meu amor por você”e “Detalhes”. Nesta última, a orquestra e o maestro Eduardo Lages ficaram em silêncio para dar voz apenas a Roberto em um banquinho com violão.  Também entraram as religiosas “Jesus Cristo” e “Nossa Senhora” e o combo global “Sereia” (acompanhada de Isis Valverde nadando no telão),”Esse cara sou eu” e “Chegaste”, a péssima e forçada parceria com Jennifer Lopez.

As mais roqueiras, inclusive as do período da Jovem Guarda, também estiveram presentes: rolou “Calhambeque”, “Imoral ou Engorda”, “Além do Horizonte” e “Que tudo vá pro inferno”. Esta última teve um sabor especial, já que Roberto passou anos sem cantá-la inteira, por não entoar a palavra “inferno” devido suas superstições e desdobramentos do Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC).

Foto: Paula Joane

Foto: Paula Joane

“Por educação, cavalheirismo e ética eu nunca irei dizer para quem escrevi essa canção”, disse antes de começar “Sua Estupidez”. Mas é quase uma verdade universal (e documentada em sua biografia proibida escrita pelo conquistense Paulo César de Araújo) que a música foi feita durante crises no seu primeiro casamento, com Cleonice Rossi, a Nice.

Tudo azul! O único incômodo que senti foi durante as interações com o público. Todas muito mecânicas e milimetricamente calculadas, inclusive a inserção de uma piadinha com o Rio Verruga (“olha só, ele conhece a cidade”, ouvi dizerem), daquelas que o produtor tem que perguntar pra algum nativo sobre a geografia local.

Por fim, Roberto é um fenômeno e vamos demorar anos até presenciar algum nome nacional que lote estádios no interior do país. Não adianta tentar diminuí-lo, isso já foi feito durante décadas pela crítica especializada, e olha, não deu muito certo.