Festival Sangue Novo: “A festa é um ato de Resistência!”

O festival acontece neste fim de semana em Salvador, com nomes importantes do cenário musical brasileiro recente

Por Jade Dias e Rets

No fértil terreno musical da Bahia só não vê a renovação de sons e ritmos quem não quer. Em sua terceira edição, o Festival Sangue Novo ocorre no Porto de Salvador, no dia 26 de janeiro com a curadoria do jornalista Hagamenon Brito, apresentador do programa homônimo do festival na Globo Fm (90,1), seguindo firme no seu propósito de divulgar novas bandas e projetos. Com um histórico de atrações que incluem nomes como Céu, Vivendo do Ócio, Ifá Afrobeat, Maglore, entre outros nomes os quais hoje possuem projeção nacional no cenário alternativo, o festival se dedica a dar visibilidade a artistas e bandas da geração século 21 da MPB. Em 2019, o Sangue Novo traz uma grade de peso, formada por nomes como Otto, Duda Beat, Bayo, Hiran, Baco Exu do Blues, o projeto Ayabass (composto pelas cantoras Luedji Luna, Larissa Luz e Xênia França) e a festa Batekoo, mostrando que tem estado antenado às novidades que se destacaram no ano de 2018. Os ingressos já se esgotaram desde a semana passada, o que aumenta a expectativa do que está por vir no festival.

O rapper baiano Hiran não pede licença e traz seu álbum “Tem mana no Rap”, lançado no início de 2018, cantando a representatividade num nicho musical cuja dominância era exercida majoritariamente  por homens héteros e não dava sinais de abertura para inclusão de gênero e orientações sexuais diversas. Em suas músicas Hiran exalta a diversidade e dá o recado: “Tem mana no rap: as portas foram abertas!”. O show contará com a participação especial da cantora Majur, que faz parceria com Hiran em seu EP e que já anuncia os sinais das novidades da música baiana para o ano de 2019.

O Batekoo, surgido em Salvador como uma festa e que hoje se firma como um movimento de liberdade de expressão, música e sexualidade, está presente em quatro cidades do país e foca na criação de espaços seguros onde o público possa se expressar livremente, sem medo de julgamentos ou discriminações, além de prezar pelo fortalecimento da cultura negra em seus ritmos (hip-hop, rap, funk carioca, R&B, trap, twerk, kuduro).

A cantora Duda Beat ganhou projeção nacional em 2018, e traz o seu show CarnaBeat para o Festival, uma releitura carnavalesca de seu álbum “Sinto Muito”, produzido pelo guitarrista Tomás Tróia (El Efecto) lançado no ano passado, juntamente com músicas de artistas baianos. Duda acerta na mistura de ritmos, indo desde o tecnobrega ao synthpop, e suas letras envolventes descrevem desilusões amorosas fáceis de se identificar, tudo isso acompanhado pelo envolvente sotaque da Recifense.

Baco Exu do Blues desponta como o grande nome do rap brasileiro atual. O jovem rapper baiano ganhou notoriedade com o premiado “Esú”, em 2017 e retorna aos holofotes um ano depois ainda mais irreverente com “Bluesman”. O disco propõe a quebra de estigmas sociais associados ao povo negro chamando de blues tudo aquilo que foi julgado sujo por ser de origem negra para posteriormente ser “embelezado” e comercializado num processo de apropriação cultural e embranquecimento.

Graco e Nina Campos formam o duo Bayo que traz seu álbum Peixe lançado em outubro de 2018. Seguindo a onda afrofuturista, com as percussões eletrônicas e orgânicas de Japa System (Baianasystem), o som do duo faz um resgate da baianidade percussiva ao passo que se entrelaça com as demais referências musicais do disco que permeiam pelo rock e pelo reggae. O single “Paraguaçu” figurou em coletâneas expoentes da música baiana para o mundo tais como o Bahia Music Export da Secult/BA e na coletânea inglesa The rough guide to  Psychedelic Samba de 2015.

O cantor e compositor Otto, integrante das primeiras formações do Nação Zumbi e do Mundo Livre S/A, e que em sua carreira solo buscou misturar sonoridades do pop com ritmos nordestinos como forró, frevo e o brega, tornou-se um dos ícones da nova geração de jovens músicos do Brasil. Otto traz para o festival a comemoração dos 20 anos do lançamento de seu primeiro álbum “Samba pra Burro”, juntamente com canções consagradas de sua carreira, incluindo seu mais recente trabalho “Ottomatopeia” de 2018.

O projeto AYABASS é resultado da parceria das cantoras Larissa Luz, Luedji Luna e Xênia França e surge no cenário com um discurso que realça a representatividade feminina negra baiana na música. O trio faz referência ao termo yorubá Ayabas que designa as orixás femininas e foca nas raízes ancestrais das artistas com sons eletrônicos que se misturam com percussões orgânicas e criam um verdadeiro clima de ritual de celebração. A inovação do projeto, que conta com a direção artística de Larissa Luz e produção musical do guitarrista Ênio (Ênio e a Maloca), as cantoras e o quarteto de instrumentistas que as acompanham dão o toque perfeito para a se criar a expectativa de se presenciar um show impactante de empoderamento e exaltação da música negra baiana das #nordestinychilds.

A ideia do festival de trazer à tona nomes que se destacam fora dos circuitos massificados de cultura dá uma noção da pluralidade musical da cidade de Salvador, os novos nomes ao lado de nomes consagrados da nova MPB evidenciam que o novo sempre vem e basta estar prestando atenção para percebê-lo. A mistura de ritmos do cenário atual torna-se parte de um movimento gradual e cada vez mais expressivo de retomada do reconhecimento nacional da singularidade da música baiana. Além disso, festivais desse porte desempenham o papel de consolidar a importância da música na promoção de espaços de valorização e empoderamento de minorias. A festa é um ato de Resistência, pontuou BAYO, e a produção do Sangue Novo parece concordar.