Fernanda Takai, literatura, Tom Jobim e crianças

Cantora, compositora e escritora esteve em Vitória da Conquista na última semana participando da mesa “Literatura, Arte e Educação”

No meio da tarde de uma quinta-feira chuvosa em Vitória da Conquista, algumas dezenas de pessoas se mobilizaram para ouvir a cantora, compositora e escritora Fernanda Takai. Ela esteve por aqui para participar da mesa temática “Literatura, Arte e Educação”, que integra o projeto “Entre Histórias e Memórias” e por sua vez esteve dentro da programação em comemoração aos 50 anos do Educandário Padre Gilberto (EPG).

Luis Antônio, Adriana Amorim e Heleusa Câmara / Foto: Rafael Flores

Na ocasião, também participaram a professora doutora Heleusa Câmara, coordenadora municipal do Comitê Proler/UESB, a professora e dramaturga Adriana Amorim, o professor e diretor artístico Joadson Prado e o aluno do 2º ano do Ensino Médio, Luis Antônio Vilalva.

“Muito feliz pelo convite de poder participar desta experiência extraordinária proporcionada pelo Educandário Padre Gilberto”, declarou Takai. “Acho que é um oásis de iluminação. Se comparado ao país inteiro, são poucos os lugares que colocam a arte nesse lugar que eles têm colocado”.

Fernanda Takai visita o memorial montado no Centro de Cultura em homenagem aos 50 anos do Educandário Padre Gilberto / Foto: Rafael Flores

Sobre a importância da arte no ambiente escolar, Fernanda completa:

“Antes de ser artista, escritora e produtora de música, eu fui muito ouvinte e leitora. Essas minhas duas experiências ao longo da minha vida inteira e que, felizmente, foram muito incentivadas pela minha família e pelas escolas onde estive, criaram para mim um ambiente de muitas possibilidades. Quem é sensível às artes e gosta de expressão artística, que é um momento maravilhoso da nossa humanidade, tem sensibilidade para dar as mãos e tentar fazer desse mundo um lugar melhor”.

A tarde guardou surpresas, como a apresentação de Analu Sampaio, estudante do EPG. Com apenas dez anos de idade, Analu já é veterana dos palcos, tendo se apresentado em alguns quadros do programa Raul Gil no SBT.

“É uma sensação muito gostosa cantar pra uma pessoa que é profissional, que canta música de qualidade, gostei bastante assim por causa que a gente foi lá na hora, as meninas me pediram, a gente ligou de improviso pra meu pai vir com o violão e foi isso…”, contou a garota.

Takai ficou visivelmente encantada com a performance, que teve espaço para “Lingo Lago do Amor”, canção gravada por ela no projeto “Música de Brinquedo” da sua banda Pato Fu.

“Não sabia que eu ia encontrar uma pessoinha assim, falei pra ela que na idade dela eu não era nada e ela já é muita coisa, já tem completamente domínio de palco, super afinada”, contou.

No camarim, ao conceder entrevista para a Revista Gambiarra, Fernanda voltou a elogiar a criança e disparou alguns conselhos:

“Mantenha isso, as pessoas tem que conhecer o seu jeito, como você é. A gente vê muito as pessoas querendo entrar numa onda, você tem ali sua própria onda que à vezes não é a da moda, mas você tem que estar feliz com ela, tem que estar feliz do jeito que você canta, com o repertório que você escolhe e isso mantém você feliz por mais tempo em várias idades diferentes”, pontuou.

E qual tem sido a onda de Fernanda Takai? Além de circular com o Pato Fu com o projeto infantil e com seus quatro livros (dois deles infantis) Brasil à fora, ela lançou em junho deste ano o “Tom da Takai”, seu terceiro disco solo.

O álbum visita a obra de Tom Jobim, um dos maiores responsáveis pela exportação da nossa cultura, com a orientação de dois nomes cruciais para a história da música popular brasileira: Marcos Valle e Roberto Menescal. E foi sobre isso que conversamos também no camarim do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima.

Revista Gambiarra: Na sua carreira você está sempre visitando e mexendo em universos de outros artistas, seja no “Onde brilhem os Teus” com Nara Leão, ou no “Música de Brinquedo” com tantas versões divertidas de músicas pop. Como é, pra você, este processo?

Fernanda Takai: No caso desse trabalho do Tom, eu mesma ficava tentando achar qual era a relevância de fazer mais um disco de Tom Jobim, né? E o Menescal e o Marcos Valle, pessoas que conviveram com o Tom e estão aí há tanto tempo fazendo músicas para gerações diferentes me deram a chave.

(…) A Bossa Nova é um elemento muito importante e de muito bom gosto, que o mundo inteiro busca e às vezes a nossa memória brasileira fica rasa, então quando um intérprete novo resolve fazer um disco de Tom Jobim – e no caso a gente pegou um repertório menos conhecido, é trazer à tona a genialidade dele mais uma vez para outras gerações, não só a que me conhece, a geração mais nova que me acompanha do “Música de Brinquedo” ou por causa dos livros infantis, ao me ver cantando em um disco que é dedicado a uma pessoa só cria uma conexão entre a minha voz e esse público novo. Já o público mais antigo, que talvez não me ouvisse pelo repertório pop, vai se interessar pela minha voz nas canções do Tom.

Então faz parte do seu modo de trabalho essa conexão entre gerações, certo?

É uma recuperação da nossa memória através das regravações que eu tenho feito, eu gravei no meu disco anterior o Benito di Paula, que quase não se grava mais e é um dos artistas que esteve na frente em execução nas rádio e vendas de disco durante todo os anos 70. A gente precisa fazer isso, eu faço música também, gosto de sentar, escrever, compor coisas novas, mas a recuperação da memória, trazer à tona esse alicerce da música brasileira para novos públicos é papel também dos interpretes.

Revista Gambiarra: Nos seus outros trabalhos como interprete e produzindo versões você brinca mais, mexe em mais estruturas do que em “O Tom da Takai”. Isso se deve à presença de Marcos Valle e Roberto Menescal?

Fernanda Takai: Acredito que sim, por que quando eles dividiram as canções e ficou cada um com metade do disco, eles vem com o toque deles, né? O toque do Marcos Valle tem um tom mais bossa nova com jazz, o Menescal já é a bossa nova com samba, o que ele chama de sambazz, né? Essa mistura dos dois no disco entrando uma faixa depois da outra com o sotaque deles da bossa nova, eu quis manter justamente pelo fato de ter duas pessoas emblemáticas tanto como compositores quanto como arranjadores, era importante para esse disco acontecer, acho que não faria tanto sentido se não houvesse o DNA deles.

Pra mim foi muito rico, é o primeiro trabalho que eu faço com as partituras originais em uma canção, por exemplo. Quando eu faço um trabalho pop eu tiro de ouvido as músicas e faço minha leitura sem recorrer a uma coisa muito certa, mas como eu tinha ali o Tom Jobim como fonte dessa maravilha que são as canções e tinha o Marcos e o Menescal interpretando as partituras e fazendo os arranjos novos e me contando a história de cada música, eu queria preservar bastante isso.

Então não é um disco iconoclasta como é o “Onde Brilhem os Olhos Teus”, por que lá a gente mudou tudo, desconstruiu os arranjos e nos permitimos nessa brincadeira, até por nossa falta de traquejo com o mundo erudito, né? Nós, eu, o John [músico do Pato Fu, produtor musical e marido de Takai] e o Lulu [ex-Pato Fu] completamente pops, trabalhamos com elementos mínimos, não tem essa vastidão de notas e camadas, a gente trabalha economicamente, então o “Onde Brilhem” é bem econômico mesmo tendo essa variedade grande de sons, mas o disco do Tom é música brasileira feita por dois grandes músicos, é MPB raiz, Bossa Nova de Raiz.