Ei, Dilma

No limiar da “festa da democracia”, que chega em outubro trazendo um cenário de certa imprevisibilidade a respeito do seu resultado, a população assiste, vibra, consome, celebra… e se revolta contra a Copa

Por Lucas Sampaio*

Se a abertura da Copa na última quinta (12) não foi deslumbrante aos olhos ansiosos de quem aguardava um espetáculo transformer radioativo com LEDs e shows pirotécnicos, a emoção dos jogos acirrados (ou não) e a forma como a organização vai levando o evento tem reduzido o nível de insatisfação de parte dos brasileiros que discordam da sua realização em território tupiniquim.

No limiar da “festa da democracia”, que chega em outubro trazendo um cenário de certa imprevisibilidade a respeito do seu resultado, a população assiste, vibra, consome, celebra. A sensação é – de fato – de unanimidade em relação ao desejo de vitória da Seleção na Copa (que me parece mais previsível que as eleições de outubro). Claramente, é mesmo só sensação. Parcela relativamente significativa ainda expõe sua revolta nas ruas, na internet e (pasmem) nos estádios.

Diferente do que tem acontecido nas ruas, os protestos daqueles que preenchem os caros e disputadíssimos lugares nos estádios têm se resumido a berros contra a pessoa Dilma Rousseff (pelo requinte das palavras, elas não são direcionadas à chefe do Poder Executivo, mas sim à pessoa que ocupa tal cargo). A bem da verdade, essa história de atribuir ao governante atual todos os problemas fáticos, ainda que estes sejam históricos e longevos, enraizados numa cultura de divergência social, é tão antigo quanto jogar futebol por essas terras.

Na superficialidade das informações, a turminha do “Ei, Dilma…” acaba por não perceber que reivindicações como “não vai ter copa” ou as aprovações de determinadas leis não são de competência do Presidente da República (que, neste último caso, apenas veta ou sanciona o que já foi aprovado pelo Congresso Nacional, casa do Poder Legislativo). As cobranças reais, que cabem à Presidência, poderiam – e deveriam – ser feitas através dos meios legais que os cidadãos possuem como garantias constitucionais, mas parece ser muito mais interessante ofender a tal da presidenta a gritos e aparecer na Rede Globo. Há quem diga que atitudes como essa mostram que o país acordou e está mais politizado.

Decerto, os ocupantes das cadeiras dos estádios jamais usufruíram dos benefícios sociais trazidos na última década, sequer se interessam a respeito da melhoria das qualidades básicas de vida desses sujeitos rejeitados em tempos idos, o que – evidentemente – não lhes tira o direito de protesto, mas explica muita coisa por trás do que é dito em coro nas arenas. A revolta pela crível corrupção que perpassa o governo petista e os muitos problemas que ainda devem ser solucionados no nosso país não dá direito a esses senhores de se prostrarem de tal forma deselegante e mal educada. A não ser que seja para zoar o Galvão Bueno. Aí tá liberado.

*Lucas Sampaio é advogado, graduado em Direito pela Faculdade Independente do Nordeste.