#Editorial “Tá um inferno e quem tá fazendo esse inferno é a polícia”

Moradores de áreas periféricas carregam consigo o medo da morte na próxima esquina, pelo crime de residirem em um ambiente tido como fonte da criminalidade

Com ódio estampado em seus rostos e punhos cerrados, mulheres acompanhadas de crianças e cartazes andavam agitadas pela praça do Fórum João Mangabeira. Conversavam alto e deixavam escapar um ar trêmulo em suas vozes, de quem acabara de passar por alguma situação de extremo estresse.

Mas medo seria a palavra mais adequada para descrever as inquietações daquelas mulheres. Na noite anterior*, a Polícia Militar havia feito uma violenta batida pelas casas do bairro Pedrinhas e elas estavam em frente ao Fórum para denunciar. Segundo as manifestantes, a violência é uma ferramenta comum dos orgãos de segurança pública mesmo quando estão lidando com pessoas inocentes ou crianças.

Em dias como este, a sensação de insegurança faz até com que as mães segurem seus filhos em casa para que nada aconteça com eles no seu trajeto para escola. A moradora do Pedrinhas, P. (que não quis identificar o sobrenome) questiona a abordagem dos políciais:

“As crianças estão com medo, nossos filhos não estão indo mais pra escola porque estão com medo da polícia e tipo assim, eles chamam as mãe de família e não respeita, falam palavrão. Essa semana mesmo eles pegaram uma pessoa lá e mandaram que ela despedisse do irmão, quando foi na quinta-feira eles executaram com cinco tiros de pistola. A gente tem que vir aqui exigir alguma providência, porque não tá dando né? Eu nem tenho palavra, eu queria era saber se aqui no Brasil já chegou a pena de morte, porque não tem julgamento eles já chegam matando”

A. V. era visivelmente a mais nervosa do grupo e não fez questão alguma de esconder sua identidade. A dona de casa nos conta detalhadamente como aconteceu a batida, que atingiu diretamente a sua família:

“Estamos protestando contra a violência da polícia, a Polícia Militar não ‘tá respeitando os moradores das Pedrinhas, a Caesg  ‘tá botando o terror também, os filhos da gente não podem ir pra escola. Eles botaram arma na cara de meus filhos, queimaram o pé de um menino com solda por causa de uma tatuagem no pé. (…) Chutou meu filho de dezesseis anos, ameaçaram meu marido de morte, sendo que ele não deve nada pra justiça. Não tá fazendo abordagem normal, nós não sabemos se acreditamos na polícia ou nos bandidos. Confiar em quem? Em Deus e nos bandidos, porque as polícia (sic) que deveria dar proteção pra gente está sendo os piores bandidos. Botando terror, 5 horas da manhã ninguém dorme nas Pedrinhas com eles cercando casa da gente, ameaçando mulher, ameaçando criança. Tá um inferno  e quem tá fazendo esse inferno é a polícia”

O desgosto com o tratamento da Polícia Militar aparece ainda em outros bairros da cidade. A estudante secundarista e moradora do Petropolis E. L., por exemplo, se identifica com os relatos do bairro Pedrinhas:

“Presencio muita cena de assédio moral e psicológico por parte das autoridades que deveriam dar apoio à população. Sou a favor da abordagem, mas que seja feita pelo menos dentro da lei. Faço também uma pergunta pra eles se existe pena de morte no Brasil, pra eles chegarem atirando e matando sem julgamento nenhum”

 

O caso do desaparecimento do menino Maicon no Condomínio Vila Bonita no bairro Ayrton Senna em 2012 também pode se encaixar nessas narrativas. Policiais militares são acusados de serem responsáveis pelo sumiço da criança e estão sendo investigados pela justiça desde o ano passado.

Estes depoimentos nos indicam para um pensamento claro na elite brasileira e nas forças que a sustentam: a criminalização da pobreza. Ser pobre e/ou negro no Brasil, além de enfrentar todos os impasses conhecidos, é carregar o estigma de bandido, de criminoso e às vezes vagabundo.

Moradores de áreas periféricas são “ótimos” alvos desta estigmatização, carregam consigo o medo da morte na próxima esquina, pelo crime de residirem em um ambiente tido como fonte da criminalidade. As forças policiais cada dia nos dão mais motivos para questionar seus métodos de atuação e principalmente refletir sobre a quem elas servem na prática.

Segundo reportagem da Revista Fórum, existem três pesquisas que foram feitas sobre decisões judiciais que condenaram pessoas por tráfico de drogas em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Brasília. Elas mostram que o perfil do usuário condenado por tráfico de drogas no Brasil é jovem, entre 18 e 25 anos, é afrodescendente, com educação fundamental, não tem antecedentes criminais, e em geral são presos sozinhos e sem porte de arma.

Por “fugir ao padrão”, apresenta-se como uma ameaça ao esquema classificatório de nossa estrutura social. Por não representar os valores ideais do padrão social, passa a ser vista como algo a ser evitado, […] com esse rótulo genérico é atribuído aos moradores indistintamente, todos eles são perigosos […] Ser morador da favela é trazer a ¨ marca do perigo ¨, é ter uma identidade social pautada pela idéia de pobreza, miséria, crianças na rua, família desagregada, criminalidade, delinqüência.(ZALUAR, 2006, p. 306, 307)

O tratamento morno e vazio da mídia local (nos incluimos neste hall) sobre casos como este também foram alvos. Ao chegarmos no local, A. V. bradava contra a principal emissora televisiva local, acusando-os de não dar voz à comunidade, preferindo sempre as fontes oficiais.

É por isso que resolvemos postar este material em forma de editorial, por não ter a obrigação ética de ouvir as fontes oficiais e demonstrar o nosso apoio à toda comunidade conquistense que está à mercê das forças repressivas policiais diariamente.

*O protesto aconteceu no dia 20 de maio.