Editorial: O seu sossego x A Cultura de um lugar

Moradores do bairro Recreio encampam movimento contra a produção cultural que tem ocupado o Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima em Vitória da Conquista

Pouco mais de três anos nos separam do dia 11 de setembro de 2013, data em que o Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima em Vitória da Conquista foi interditado a pedido do Ministério Público Estadual (MPE) e baseado em laudos do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia da Bahia (CREA-BA) e do Corpo de Bombeiros. Desde lá, o assunto rendeu audiências públicas, debates e comentários negativos sobre a demora do início das obras, principalmente durante os dois anos eleitorais neste grande intervalo de tempo.

No dia 24 de setembro de 2015, a Concha Acústica e o foyer do Centro de Cultura voltaram a funcionar. A primeira chegou a receber alguns grandes eventos como o Festival Anual da Canção Estudantil (FACE), Listen Rock, Conquista do Rock, Mostra de Cinema, Festival Próxima Estação e a primeira edição do Veraneio. Em boa parte delas destes, a vizinhança do bairro Recreio mostrou-se insatisfeita e iniciou um movimento incessante para estancar os eventos no espaço.

A solução, encontrada pelo atual diretor do Centro de Cultura Elton Becker foi fugir da concha acústica e ocupar os espaços internos, como o foyer – já que o teatro continua interditado. Em entrevista para o Blog da Gente, Becker afirma que além de ser uma solução prática para o diálogo com a comunidade no entorno, existe um pensamento de ocupação criativa do centro. “É ocupar o espaço criativamente e ao mesmo tempo chamar a atenção da população para a importância desses espaços. Não é porque o teatro está fechado que o Centro de Cultura não pode ser utilizado”, explica.

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Scambo se apresenta no foyer do Centro de Cultura / Foto: Duane Carvalho

No Sarau Hotel Mambembe de dezembro de 2016, a ideia foi posta em prática, mas o primeiro grande evento a experimentar foi a segunda edição do Veraneio, realizado no dia 21 de janeiro. Infelizmente, a boa vontade dos organizadores e da gestão do equipamento público não foram suficientes para conter os ânimos dos vizinhos.

Antes de continuarmos, é importante frisar que o evento em questão começou às 15h e encerrou às 23h (horário permitido pela casa). Fiscais do Setor de Posturas chegaram ao local às 20h45, com base em denúncias dos vizinhos amantes da cultura (leia essa frase com uma pitada de ironia). Assim, os funcionários da prefeitura pediram as papeladas e constataram a falta de uma das autorizações necessárias para o evento ser realizado: um ofício informando a administração municipal.

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Luiza Audaz se apresenta no Sarau Hotel Mambembe / Foto: Rafael Flores

Os decibéis foram medidos e o aparelho não acusou a ultrapassagem. Assim, os organizadores foram multados não pelo som alto, mas pela falta do documento citado acima. Em nota enviada à Revista Gambiarra, a Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista diz que “após a defesa formal dos organizadores, apresentada durante reunião com a Coordenação de Posturas, a Administração Municipal reconsiderou e optou pelo arquivamento da penalidade. Os organizadores se comprometeram a cumprir a formalidade nas próximas edições”.*

Apurando, descobrimos que as denúncias não foram feitas no dia do evento e sim, durante a semana. Na mesma nota, a Prefeitura confirma a informação e diz que “ (as denúncias) se referiam a um evento ocorrido na semana anterior ao Veraneio”. No entanto, o Veraneio foi o primeiro evento do ano no Centro de Cultura. Assim, constatamos que a vizinhança se mobilizou com antecedência e conseguiu fazer com que os fiscais visitassem o evento.

Não vemos tal mobilização tomar tanta força em eventos no Parque de Exposição, que costumam durar até as manhãs e tremer as paredes de metade da cidade. Se ela existe, não vemos a concretização por meio de visitas inesperadas e multas aos organizadores. O sossego deve ser respeitado, porém com sensatez!  É muita arrogância e egoísmo boicotar o nosso único centro cultural ativo por conta do sono de alguns. Fica também o ensinamento de que se meia dúzia de moradores conseguem atrapalhar a vida cultural de uma cidade, nós podemos fazer esta fluir.

*O que já foi feito na realização da 9ª edição do Sarau e Palco Hotel Mambembe

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