Editorial: “São as pessoas da sala de jantar”

Reinauguração do Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima funcionou como festa particular em comemoração ao título de cidadão conquistense concedido ao governador

Com uma pequena comitiva, Rui Costa (PT) entrou pela primeira vez no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima enquanto governador da Bahia. Ele entrou no espaço abaixo de vaias e protestos da Associação dos Docentes da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Adusb), que do lado de fora questionavam o corte de R$ 200 milhões para as universidades estaduais nos últimos anos e quase R$ 7 milhões em 2018 apenas na Uesb.

Exposição“No Sertão de Euclides, Guimarães e Murilo” do artista plástico J.Murillo

Quem o recebeu, logo no foyer, foram as obras do artista plástico J.Murillo, cujo velório neste mesmo lugar em maio de 2013 rendeu a exoneração da então diretora Maristella Schiavo e marcou o início de um ciclo tortuoso para o espaço e para a produção artística e cultural da região.

Em setembro do mesmo ano, já sob a gestão de Daniel Nunes, o equipamento foi interditado a pedido do Ministério Público do Estado da Bahia. Entre indas e vindas de entendimentos sobre a decisão, o Centro funcionou parcialmente durante um período – porém voltou a ser totalmente interditado em 2017.

Não se sabe o quanto de toda a história do espaço e de seus imbróglios mais recentes o governador sabe, até por que nenhuma linha foi dita, nenhum discurso foi feito e sequer a Secretária de Cultura Arany Santana, também presente, teve algum momento de fala. Na manhã do mesmo dia, em coletiva de imprensa, Rui apenas citou a reabertura do equipamento, como quem fala da entrega de uma viatura.

O que chegou mais perto de uma retomada simbólica do espaço foi o breve monólogo do cantor e compositor Xangai, responsável pelo show quase particular de abertura. Lembrou do governador João Durval, que em sua gestão inaugurou este e outros seis equipamentos culturais do estado no interior da Bahia e exaltou a importância destes para as suas respectivas comunidades.

Xangai também pontuou a ausência do prefeito Herzem Gusmão (MDB), o que nos leva a pensar se o gestor foi ao menos convidado para estar ali, já que é sabido que a secretária municipal de Cultura Tina Rocha não recebeu o seleto convite. A portaria estava fechada e apenas imprensa e convidados possuíam acesso ao local.

Dentro da extensa agenda de Rui Costa, estava o recebimento do título de cidadão conquistense, concedido a ele pelo vereador Rodrigo Moreira (PP). A cerimônia ocorreria na Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, mas foi transferida de “ultíssima” hora para o Centro de Cultura. Fontes atestaram que a razão foi o receio dos protestos da Adusb, mas a organização alegou que foi para facilitar a agenda.

Xangai e João Omar durante reinauguração do Centro de Cultura

 

Assim, aquilo tudo funcionou muito mais como uma comemoração particular do governador pelo título concedido, do que uma entrega de um equipamento público tão importante para a cidade e região.

Então, tudo se resume ao grito quase rouco de Selma, personagem icônico da luta pela Cultura na cidade, que teve que rebolar para conseguir entrar na “festa”. Ao final da apresentação de Xangai ela repete por três vezes: “Sãos as pessoas da sala de jantar!”, evocando o verso do hino tropicalista Panis Et Circenses, que significa Pão e Circo em latim.