#Editorial Os linchamentos midiáticos e a violação de direitos

Jovens presos acusados de furtos alegam inocência, mas têm suas fotos expostas nos blogs conquistenses; homem é rendido por moradores, amarrado e espancado após tentativa de roubo no bairro Candeias. Mas, em que esses dois casos se assemelham?

No início deste semana, dois fatos chamaram atenção em meios às notícias publicadas em blogs de Vitória da Conquista e viralizadas nas redes sociais: o primeiro relacionado a seis jovens presos no final de semana, acusados de realizarem pequenos furtos dentro do Parque de Exposições, onde acontece a 49ª Exposição de Vitória da Conquista. Estes agiam com máscaras, dando um tom chamativo às matérias. O segundo diz respeito a um homem, que após a tentativa de roubo de um carro numa via do bairro Candeias, na tarde deste domingo (22), foi rendido pelos moradores, amarrado em uma árvore e espancado.

O homem preso à árvore nos faz rememorar um episódio que aconteceu no ano passado, no Rio de Janeiro. Um rapaz foi agredido, deixado nu e preso com uma trava de bicicleta a um poste. Os bombeiros foram chamados e precisaram usar um maçarico para libertar o rapaz, encaminhado para um hospital. Ele estava sem documentos e o caso não chegou a ser registrado na polícia. O fato chegou até a bancada do jornal do SBT, quando a âncora Rachel Sherazade emitiu um infeliz comentário defendendo a ação dos “justiceiros”. A polêmica foi instaurada e parlamentares chegaram a entrar com uma representação contra a jornalista e a emissora, pedindo a retirada da concessão pública por violação da Constituição e incitação de crimes de intolerância e violência.

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Adolescentes presos acusados de realizarem roubos no Parque de Exposições em Conquista.

O caso da quadrilha que vinha agindo dentro do Parque de Exposições teve uma particularidade: dois dos meninos exibidos nas fotos que circularam nos blogs conquistenses afirmaram que não participavam do grupo e não conheciam os outros quatro rapazes presos. Adailton Costa Oliveira, de 19 anos, contou que ele e seu primo, Ricardo Chaves Costa, de 20 anos, foram presos por engano. “A gente já estava indo embora. Aí, os policiais chegaram e levaram a gente pra fora, fizeram a abordadem e depois levou a gente para a delegacia. Agora, está publicado com a foto da gente, em um caso que não temos nada a ver, somos inocentes. Aí fica ruim pra gente trabalhar, até passando vergonha”, contou. Dona Marilene Costa, mãe do outro jovem preso, Ricardo, conta que seu filho sofre de uma deficiência mental e foi envolvido de forma errada nesse caso. “Eu fico com o coração doendo por ver o nome do meu filho envolvido nesse caso. Ele é especial, mas estuda e não anda no meio das drogas, nem conhecia esses outros meninos que foram presos. Eu nunca vi meu filho desse jeito e, agora, está todo mundo sabendo. Não dá nem para ir pra escola, porque todo mundo comenta”, lamentou a mãe.

Mas em que esses dois fatos se assemelham? Casos como esses, corriqueiros às vistas da sociedade, são relatados quase todos os dias pelos veículos de comunicação. Ancorados em vagos conceitos de “interesse público”, os responsáveis pelas notícias acabam tratando as informações superficialmente, na maioria das vezes usando do sensacionalismo para atrair leitores. A função social da imprensa é deixada de lado e é desse vácuo que surge a opinião pública baseada na generalização da violência, cheia de julgamentos e preparada para fazer “justiça” com as próprias mãos.

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Homem é preso em árvore e espancado no bairro Candeias, após tentativa de roubo.

Além disso, a exposição em que essas pessoas estão sujeitas, contribuem para a arbitrariedade contra a suas reputações. Segundo o artigo “Direito de Imagem e Ética Jornalística”, do pesquisador Eduardo Altomare Ariente, a publicação da imagem de pessoas sem autorização, todavia, não é tão ampla assim, de acordo com os princípios da preservação da dignidade humana e da presunção de inocência, que julgamos relevantes fundamentos éticos para a atividade jornalística. O desafio ético consiste justamente na adequação entre a liberdade de expressão, da qual a atividade jornalística e o registro fotográfico constituem espécies, e o resguardo da dignidade e da imagem das pessoas objeto das matérias. Ainda segundo o autor, a ética jornalística, de todo modo, deve permear todo esse processo.

O linchamento físico, no caso do homem amarrado à árvore, não se difere do linchamento moral vivenciado pelos jovens expostos pela mídia. O pré julgamento não se restringe à quem é violado, atinge também a sua família, seu trabalho, desenvolvendo consequências irreparáveis. Como conclui Ariente, a imprensa deveria, ao invés de estar na linha de frente dos abusos, criar filtros contra os sentimentos de vingança e tentar prestigiar a defesa intransigente por justiça, de acordo com o devido processo legal. O uso comedido e moderado de imagens de terceiras pessoas não constitui obstáculo para a prática jornalística, pelo contrário, valoriza a inteligência dos receptores sem agredir o direito das pessoas, objetos de matérias de interesses jornalístico.