#Editorial Conquista foi feita para rolezinhos

É preciso ter um motivo para que essa juventude possa estar nos lugares que “não lhes pertence”

Na última semana, a conversa sobre rolezinhos chegou com força à Vitória da Conquista. Blogs locais alardearam a realização do tal flash mob periférico no shopping Conquista Sul. Se foi boato, como afirma a superintendência do estabelecimento ou um mini arrastão como narram perfis das redes sociais, não é a discussão posta aqui em cheque. Propomos a reflexão de como Conquista cria condições para a existência dos tais.

Quando um visitante chega a Vitória da Conquista, a primeira coisa que observa é em como a cidade é bem organizada, limpa e visualmente planejada. E de fato, o centro e a região leste são. No entanto, existem detalhes que não são perceptíveis à primeira vista e um deles é como a cidade é dividida pela simbólica rodovia BR-116, ou simplesmente Rio-Bahia.

Rolezinhos em Vitória da Conquista são como trazer localidades distantes do centro para ter acesso ao eixo “organizado”. Um rolezinho no comércio do centro da cidade ou na Olívia Flores causaria tanto estranhamento quanto os que aconteceram nos conglomerados de lojas caríssimas das grandes capitais.

É interessante lembrarmos de dois momentos, cremos que ainda recentes na memória de alguns, ambos na Praça Barão do Rio Branco: O primeiro foi durante a realização do Natal da Cidade de 2012, quando um grande baile funk ocupou as alamedas ao redor da praça. Para quem passou no centro naquele dia e se deparou com muitos negros dançando funk na Barão do Rio Branco, sem um motivo aparente, foi assustador. Afinal, é preciso ter um motivo para que essa juventude possa estar nos lugares que não lhes pertencem.

O outro foi na segunda edição Festival da Juventude, o qual teve como convidado o rapper Gog, aquele que acusou a Rede Globo de “patrocinar o apartheid brasileiro” ao recusar o convite para participar das homenagens à Nelson Mandela. No dia que Gog subiu ao palco, todo o público que geralmente era encontrado no beco, debaixo de grandes cortinas de fumaça e bonés de aba reta, estava na frente do palco cantando para todo mundo ver. Não foi um dos shows mais lembrados daquele ano.

O interessante desses dois momentos é que comprovam o quanto a cidade é dividida. De fato, até os eventos que ocorrem na cidade não conseguem dar conta de trazer esse público para a praça, foi difícil isso acontecer nas poucas vezes que foi proposto.

Voltando aos rolezinhos. Não é necessário dizer, aqui, o quanto assustam a classe média e os bons frequentadores dos locais de “bons costumes”. Mas, sim, enxergar o quão estranho estão as coisas, a ponto de precisarmos de uma desculpa para que a periferia venha usufruir dos espaços da cidade.

É preciso que esses rolezinhos abram os olhos das pessoas que acreditam que estamos no caminho do fim das desigualdades, e que percebam o contrário. Estamos fechando nossos olhos para o mundo real. As políticas de higienização nas grandes metrópoles e os remanejamentos de populações inteiras, nas cidades que cresceram desordenadamente, são tentativas de deixá-las bem parecidas com Vitória da Conquista, uma cidade onde cada um tem seu lugar, a cidade que se tivesse um grande estádio e fosse banhada pelo mar, seria uma sede ideal para jogos da Copa do Mundo.