#Editorial Eu não mereço ser estuprada

O resultado da pesquisa divulgada pelo IPEA na semana passada é um reflexo do que parte da sociedade entende sobre a violência contra a mulher, que pode assumir muitas formas – física, sexual, psicológica e econômica

Na semana passada, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgou a pesquisa “Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS)”, afirmando que 65% dos brasileiros acham que mulher de roupa curta merece ser atacada.

A pesquisa, feita entre maio e junho do ano passado, ouviu 3.810 entrevistados de todas as regiões do País. Destes, 56,7% eram do Sul e do Sudeste e 29,1%, residentes em áreas metropolitanas. Em relação à faixa etária, 28,5% eram jovens entre 16 e 29 anos; 52,4% tinham entre 30 e 59 anos e 19,1% eram idosos com 60 ou idade superior.

Dos que participaram do levantamento, 66,5% eram mulheres; 38,7%, brancos; 65,7%, católicos; 24,7%, evangélicos e 9,6%, pertencentes às demais religiões, ateus e sem religião.

Quanto ao grau de escolaridade, 41,5% daqueles que fizeram parte da sondagem tinham menos do que o ensino fundamental; 22,3%, o ensino fundamental; 30,8%, ensino médio e 5,4%, ensino superior.

Os resultados da pesquisa reverberam o que parte da sociedade entende sobre a violência contra a mulher, que pode assumir muitas formas – física, sexual, psicológica e econômica. São incontáveis os relatos de discriminação, preconceito, humilhação e abuso de poder em relação às mulheres em situação de violência.

Em São Paulo, por exemplo, 26 homens já foram presos acusados de praticar “encoxamentos” nos transportes públicos (ônibus e metrô). A Polícia Civil vai pedir quebra de sigilo de dados de autores de páginas que promoviam ou debatiam as “encoxadas” pelo Facebook. A maior parte desses grupos foi extinta depois que uma onda de denúncias veio a público. Grupos de “encoxadores” que se organizam e divulgam vídeos e fotos de vítimas pelo aplicativo Whatsapp também são alvo de investigação. Porém, o compartilhamento de experiências na internet pelos abusadores não é algo tão atual. Na rede social Orkut, é fácil encontrar comunidades do gênero. Uma delas, de Brasília, criada em 2008 e com 730 participantes, estimula abertamente a prática.

Em Vitória da Conquista, movimentos sociais denunciaram, por meio de notao clipe “Tigrão Gostoso”, da banda local Abrakadabra. Segundo eles, o material enaltecia a posição do homem como opressor, naturalizando o sexo sem consentimento (mais conhecido como crime de estupro, previsto pelo artigo 287 do Código Penal). Apesar dos dados contidos na nota, o vocalista Pretu Abrakadabra afirmou em entrevista à Revista Gambiarra que “o estupro não é uma coisa corriqueira”. Depois de algumas semanas, o clipe foi retirado do ar e um dos patrocinadores solicitou a desvinculação de sua marca no material.

Porém, coincidentemente (ou não), a banda publicou o vídeo novamente em seu canal do Youtube na mesma semana em que a pesquisa do IPEA foi divulgada. O vocalista ainda deixou uma declaração em seu perfil no Facebook: “Quem não gosta ou critica o próprio [vídeo] pode me excluir pois não vai fazer falta, tenho 4 mil pessoas esperando para serem aceitas!!!”

Dica de leitura: Quando a música passa de diversão para opressão – Segundo a pesquisadora Ana Bonomi e suas colaboradoras Lauren Altenburger e Nicole Walton, da Universidade do Estado de Ohio, nos EUA, “a normalização do abuso na cultura popular por meio de romances, filmes e músicas criam o contexto que sustenta a violência”

As reações da pesquisa mobilizaram pessoas de várias partes do país. Uma delas foi a campanha #EuNãoMereçoSerEstuprada criada na noite dessa sexta-feira (28) pela jornalista Nana Queiroz. A cantora Pitty também deu início a outra campanha, em que escreveu a frase “Eu sou minha” no próprio corpo, lembrando o texto que postou recentemente em seu blog “O Boteco”, falando sobre a cantora Anitta e o direito de se expressar, de qualquer forma, inclusive com o corpo.

Há pouco tempo, as mulheres vem conquistando políticas públicas importantes como a Lei Maria da Penha que defende legalmente as mulheres vítimas de violência. Cada vez mais mulheres ocupam cargos importantes no país, apesar de ainda terem que conviver com o machismo impregnado culturalmente na sociedade.

O debate também está ganhando espaço no poder legislativo, a exemplo da Lei Antibaixaria, da Deputada Estadual Luiza Maia (PT-BA) e do projeto de lei da mesma autora, que pretende impedir que imagens erotizantes vinculadas à mulher sejam utilizadas na publicidade.

Mas há outras instâncias que ainda propagam o pensamento machista e se consistem em espaços onde esses tipos de violações se mantém institucionalizadas, como na mídia. Em outros ângulos, esse tipo de pensamento pode se manter camuflado, a exemplo das festas onde o valor do ingresso para mulher custa menos do que o para homens. Nesse caso podemos citar as consequências mais óbvias, como a objetificação do corpo feminino, tratando-o como um bônus para o público “macho-alfa”, naturalizando a cultura machista. Vem também em forma de outros preconceitos, como a homofobia e a transfobia.

#Eunãomereçoserestuprada

_DSC0530

Foto: Rafael Flores

A mulher tem que ser livre, para andar por onde quiser, na hora que quiser, com quem quiser e com a roupa que quiser.

Dessa forma, a Revista Gambiarra repudia toda e qualquer postura machista, que culpabiliza a vítima. Nós não merecemos ser estupradas!