#Editorial Bienal da Bahia. De que Bahia?

A terceira edição da Bienal da Bahia traz consigo um questionamento: quando os  eventos culturais do estado vão mesmo englobar a população que vive fora dos grandes centros?

Na década de 60, os inquietos artistas baianos buscavam se conectar com as diversidades da vanguarda brasileira, o que resultou na realização de duas edições da Bienal da Bahia em 1966 e 1968 por Alaor Coutinho, então Secretário de Educação e Cultura. Os eventos ficaram marcados na história da cultura contemporânea brasileira por reunirem movimentos como o Concretismo, o Neoconcretismo e a Tropicália.

A segunda Bienal, em 68, aconteceu logo após o Ato Institucional Nº5 entrar em vigência. Por não estar em consonância política e ideológica com o governo militar, o evento foi interrompido e seus principais idealizadores presos. Dentre eles, Juarez Paraíso, secretário-geral de ambas as bienais.

Na década de 60, quando as duas primeiras edições aconteceram, as políticas públicas voltadas para a cultura na Bahia eram embrionárias. As poucas ações do Estado concentravam-se completamente na capital.  Só a partir da década de 70, com a implantação da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB), o estado começa a estender o seu alcance. Segundo Daniele Pereira Canedo em seu livro “Democracia e Participação Social: um estudo da II Conferência Estadual de Cultura da Bahia”, o estatuto da fundação tinha como objetivos: “preservar o acervo cultural constituído; promover a dinamização e criação da cultura; difundir e possibilitar a participação da comunidade no processo de produção cultural”.

Apenas na década de 80 as políticas voltadas para a cultura começam a mostrar uma mínima presença no interior. Durante a gestão do governador João Durval (1983 a 1986), foram criados sete equipamentos culturais no interior da Bahia com o objetivo de promover a circulação cultural no estado. Dentre eles, o Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, em Vitória da Conquista.

Em 2007, primeiro ano do governo de Jaques Wagner, com a pasta da Secretaria de Cultura nas mãos de Márcio Meirelles, é criado o Programa Integrado de Desenvolvimento Territorial da Cultura. O programa tem como objetivo promover o desenvolvimento sociocultural dos 26 territórios baianos, de maneira integrada, através da participação das comunidades beneficiadas e da articulação dos poderes públicos com a sociedade civil organizada e a iniciativa privada. É o primeiro passo realmente significativo rumo à interiorização da política pública cultural baiana.

Depois de 46 anos, a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA) investe na retomada da Bienal, fechando um hiato de 46 anos. Com o tema “É tudo nordeste?”, vem com o objetivo de inserir tanto Salvador quanto o interior da Bahia no circuito global das artes, segundo a produção.

Para o interior, a organização da 3ª Bienal da Bahia reservou algumas programações, envolvendo exposições e mostras de cinema. A chegada em Vitória da Conquista se deu via parceria com duas instituições de grande repercussão na região, a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e a Fundação Casa dos Carneiros. A primeira, por meio do cineclube Janela Indiscreta, está exibindo na Sala Jorge Melquisedeque na Uesb uma mostra com três filmes escolhidos de uma lista de 80 enviada pela curadoria da Bienal. Já a segunda traz a exposição itinerante “No Litoral é assim” para a sede da Fundação Casa dos Carneiros, no Povoado da Gameleira, a 20 km de Vitória da Conquista.

No entanto, o caminho rumo à interiorização ainda nos parece bastante longo. Ambas as ações acontecem em locais distantes do centro da cidade, limitando o acesso de boa parte do público. A primeira sessão da mostra da Bienal na Sala Melquisedeque contou com a presença de apenas sete pessoas, dentre elas um integrante do Janela Indiscreta e uma estudante de Cinema e Audiovisual, responsável por fazer os comentários no final do filme.

Coisa parecida pode acontecer na exposição prevista para se iniciar no próximo dia 28 de julho e se encerrar no dia 10 de agosto. Por mais que a sede da Fundação da Casa dos Carneiros fique na zona rural do município, ela não tem a capacidade de englobar a comunidade da região da Gameleira e costuma receber a faixa de público que tem condições de se locomover com seus automóveis.

A escolha é no mínimo estranha, já que o Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, que estava interditado para reformas, já está recebendo eventos de porte parecido. Apenas nos últimos dois meses, o espaço recebeu eventos como a Mostra Conquista Literária, o Festival 5 Minutos e esta semana traz o Salão de Artes Visuais da Bahia, realizado por editais da própria SecultBA.

Questionamos também qual é a real participação do interior na construção deste evento tão revelador das concepções artísticas do estado. A Bienal vem mostrar para o sertão o que é o litoral, mas parece não se esforçar para lembrar que do interior baiano saíram os principais nomes da nossa arte e que, talvez, se as políticas públicas funcionassem melhor por aqui, nós é que mostraríamos o que é o sertão.