#Editorial Arte pela arte? Nem tanto

Reações explosivas sobre foto em outdoor são o principal mote do nosso editorial da semana

Arte pela arte? Nem tanto, a exposição fotográfica a céu aberto, que contou com outdoors espalhados por Vitória da Conquista como suporte, teve a clara intenção de provocar descargas de espanto na comunidade local. Uma delas mostra um jogador de futebol decapitado segurando sua própria cabeça em um campo de terra. Coincidentemente ou não, a fotografia foi posicionada ao lado de uma propaganda de cursinho pré-vestibular que trazia referências à seleção brasileira e à Copa do Mundo.

Outro outdoor, o qual nos motivou a tecer tais linhas editoriais, traz consigo três fotografias, em uma delas dois homens se beijam. Um destes faz referência visual a Jesus Cristo e gerou um estranhamento a muitas pessoas.

OK, é aqui que a ousadia do projeto realmente vai um pouco além. Se a noção de que mexer com religião sempre dá problema é tão antiga quanto a própria história de Jesus, óbvio que as reações negativas não seriam nenhuma surpresa para os responsáveis pelas fotos. Mas será que os “vândalos” que estragaram o outdoor não estavam falando quase a mesma língua dos artistas?

Os fotógrafos do projeto Obranúncio, fruto de um edital da Secretaria de Cultura do estado da Bahia, deram um tapa na cara dos religiosos e receberam uma cusparada como resposta. Se o objetivo da foto em que “Jesus” beija outro homem era basicamente chocar a sociedade, parabéns aos envolvidos, é até interessante ver algo tão “rock ‘n’ roll” nas ruas da cidade. Mas os insatisfeitos combateram uma afronta com outra afronta.

Talvez, tenha havido na foto, a intenção de conscientizar alguém a respeito de diversidade sexual e igualdade. Porém, este pode não ter sido o melhor caminho para isso. Que religioso olharia para aquilo e repensaria a sua forma de entender a homossexualidade ? Era óbvio que eles apenas se sentiriam ofendidos.

As opiniões se dividiram, bem como ocorreu no dia que os outdoors foram expostos (13). Isso ocorreu também há algumas semanas, no beijo gay veiculado na novela Amor à Vida. O ato de pichação foi acusado de homofóbico enquanto outros o entenderam como resposta à altura. Independente dos métodos utilizados e baseado nas discussões que estão ocorrendo nas redes sociais, parece que a principal motivação do ato foi mesmo uma explosão homofóbica.

Frases do tipo meu filho não é obrigado a ver uma coisa dessas, ou uma minoria está se impondo como maioria estão infestando os comentários. O que pode ser preocupante é que uma atitude como essa educará de forma inversa as futuras gerações. A forma como o outdoor acordou diz para o filho: se um coleguinha tentar te beijar, bata nele! Estamos mesmo vivendo numa sociedade civilizada?

Uma das intenções dos beijos gays em novelas e campanhas contra homofobia é desmistificar um ato que foi demonizado pela nossa sociedade. A representação de ícones religiosos se beijando nada mais é do que isso. Porém, a sociedade tem um nível de consciência que não salta de acordo com nossos desejos. A imagem mirou em um alvo e o alvo revidou.

Lembrou também o caso do grupo Porta dos Fundos com o pastor Marco Feliciano. Esses acontecimentos são característico da nossa sociedade, representam muito bem uma estrutura social. Quando a cultura predominante é atingida, no caso aqui a religião cristã e o comportamento heterossexual, a resposta é justificada pela própria sociedade e sua estrutura. As minorias gritam e esperneiam, mas a sociedade responde: querem doutrinar o mundo!. Porém, quando a cultura das minorias é atingida, é com as luzes apagadas. Quando ninguém vê, jovens homossexuais são assassinados em nome dos valores da boa família. No ano passado, um foi a uma festa e nunca mais voltou, foi espancado até a morte com uma barra de ferro atravessada na perna. O laudo da perícia dizia que ele tinha cometido suicídio.

A Secult/BA se prontificou em lançar uma nota de repúdio à atitude. Vejamos qual será a resposta da comunidade conquistense em relação à depredação do outdoor, se aplaudimos ou se julgamos. Uma coisa é certa, o momento é mais uma oportunidade para elevarmos o debate.