#Editorial A questão está em quem ganha ou como ganha?

A lista tríplice de chapas concorrentes à reitoria da Uesb é um claro cabresto nas universidades estaduais baianas para garantir que em situações difíceis o Governo do Estado possa nomear aquele que melhor lhe convir e melhor servir a interesses alheios aos da universidade

As eleições para reitoria da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) se encaminham para o seu desfecho, mas pode-se dizer que seu ponto de maior atenção se deu na última quarta-feira (07), quando os eleitores foram às urnas. A chapa de situação, composta pelos professores Paulo Roberto e Fábio Felix, foi eleita com maioria de votos nas três categorias.

A data inicial de votação era na verdade o dia 16 de abril, mas por conta de imprevistos e para garantir a integridade da comunidade acadêmica em plena greve da Polícia Militar, a votação foi adiada para o dia 07. Com essa dilatação de período eleitoral sem campanha e sem maiores debates, era de se esperar que a comunidade acadêmica esfriasse. A quantidade de votos que se viu nas urnas foi inferior à das eleições passadas, em 2010, quando a Universidade possuía uma quantidade significativamente menor de cursos e, consequentemente, menor quadro de professores, funcionários e alunos.

Para se ter uma ideia, nas eleições de 2010, o número total de votantes que foram às urnas foi de 6.027, enquanto nesta quarta-feira somente 4.617 acadêmicos depositaram seus votos. Vale lembrar que nas eleições de 2010 existia um setor da Universidade puxando o voto nulo/branco. Em 2010, a maior diferença de votos foi na categoria de estudantes, na qual votaram 4.620 comparados aos 3.322 que votaram esse ano.

Resultado das eleições para reitoria da Uesb em 2010
*/** Esses valores foram calculados desconsiderando os votos nulos e brancos;

*/**Esses valores foram calculados desconsiderando os votos nulos e brancos;

Com esse comparativo é possível comprovar aquilo que já era possível observar ontem nos corredores da Uesb: o esvaziamento da eleição. Existe um outro ponto que também precisa ser questionado nessas eleições: novamente, os conselheiros do Conselho Universitário (Consu), majoritariamente a categoria de professores, aprovaram que as eleições seriam regidas pelo voto paritário.

É difícil compreender como o suposto ambiente privilegiado do conhecimento e da democracia consegue, ano após ano, aprovar um regime eleitoral desigual utilizando um discurso de igualdade. A universidade não é uma instituição para si, ela faz parte de uma comunidade maior e por isso precisa dar um retorno a essa sociedade através de suas atividades e da formação de profissionais e acadêmicos, portanto, não seria tão errôneo dizer que o ideal mesmo seria que toda a sociedade civil elegesse um reitor – logicamente, seguindo os critérios do voto universal.

Isso derruba o principal argumento que é utilizado pelos defensores do voto paritário, o de que o jovem universitário não fica mais de 4 anos em média na universidade e as outras categorias votam com maior consciência. A contradição está no fato de que é a juventude que está indo às ruas lutar pelos direitos de cidadania e demonstrando para a classe trabalhadora que tem condições de lutar e arrancar direitos sociais tanto quanto tem o direito de votar de igual para igual para Presidência da República e qualquer outro cargo político. A concepção de voto paritário menospreza a autonomia de pensamento dos estudantes.

E por falar em menosprezo, novamente, pouco se ouviu sobre a famigerada Lei 7.176, que regulamenta, dentre outras coisas, a lista tríplice. Apesar de nunca ter ocorrido de um reitor menos votado ser nomeado por algum governador do estado da Bahia, só o fato de termos uma lei que garanta esse tipo de intervenção já é motivo para questionar todo o processo eleitoral.

No contexto da Uesb, tendo o porte que tem, as eleições geralmente têm três chapas concorrendo. Em situações atípicas é possível imaginar até cinco chapas, mas mais do que isso já parte para o campo da imaginação. A lista tríplice é um claro cabresto nas universidades estaduais baianas para garantir que em situações difíceis o Governo do Estado possa nomear aquele que melhor lhe convir e melhor servir a interesses alheios aos da universidade.

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Charge: A.J. Oliveira