“É realismo fantástico”, dizem Raimundos sobre machismo em letras

Banda afirma que letras apelativas eram forma de testar se a censura da Ditadura Militar havia realmente terminado

Mais de 15 anos separavam a banda Raimundos da última apresentação em Vitória da Conquista, o hiato foi quebrado ontem (26) durante a segunda noite do Festival de Inverno Bahia. O grupo brasiliense conversou com a imprensa e dentre outros assuntos, comentou sobre algumas de suas letras, que contém doses de machismo.

Em um período em que ícones da música brasileira são postos na parede por conta de pensamentos e composições que afirmam o machismo, a Revista Gambiarra questionou à banda se eles já haviam repensado em alguns de seus trabalhos.

O baixista Canisso concorda com o teor sexista de alguns trabalhos, mas afirma que para uma música ser analisada, esta precisa ser colocada dentro de um contexto.

“A maioria das músicas dos Raimundos que hoje são acusadas de machismo, sexismo, surgiram em um momento onde a censura que vinha da ditadura tinha recém acabado e elas nada mais foram que um teste para ver se a censura tinha realmente acabado”, explica.

Canisso no Festival de Inverno Bahia 2017/ Foto: Rafael Flores

Apesar da banda ter gravado disco apenas em 1994, nove anos depois do fim da Ditadura Militar, ela foi fundada em 1987 e realmente pegou a “rebarba” de muitos sentimentos em relação àquele período político.

No entanto, mesmo músicas lançadas recentemente tem reforçado discursos do tipo. Em “Gordelícia” de 2015 (que inclusive, abriu o setlist deste sábado), a mulher gorda é tratada com um velho esteriótipo: “Na segunda ela muscula pra perder sua barriga/ E ela briga com a balança, a sua maior inimiga/ Ela é o topo da cadeia alimentar”.

Digão no Festival de Inverno Bahia/ Foto: Rafael Flores

Digão, vocalista e guitarrista, compara o que era dito nos discos dos Raimundos com o que é dito hoje em letras de funk.

“O Raimundos é como uma banda de ficção, a gente sempre falou aquelas coisas, mas era pra rir, não são coisas que a gente faz, de pegar, estraçalhar e fazer não sei o quê… O que é diferente dessa galera que canta o que faz, a gente não faz, é tudo ficção, é o realismo fantástico”, completa.

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