Djambê: “A responsabilidade é do tamanho do privilégio”

A banda mineira esteve em Vitória da Conquista para a segunda edição da Noite Fora do Eixo do ano – dividindo o palco com o cantor Evandro Correia

O Undergound Pub, local que tem recebido o projeto Noite Fora do Eixo em 2017, ainda estava vazio quando Evandro Correia subiu ao palco. Enquanto o cantor conquistense entoava seus clássicos, como “Gema” e “Menino da Vida”, os olhos mais atentos eram de seis mineiros.

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Foto: Rafael Flores

No meio do show, dois deles subiram ao palco e assumiram as percussões – fazendo uma jam inusitada. Outros dois se uniram em uma dança de forró digna de junho e os restantes continuaram na observação.

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Foto: Rafael Flores

Os seis mineiros são: Biel Santana, Priscilla Glenda, Emílio Dragão, Júnior Caban, Alex Bartelega e Danilo Candombe. Todos* integram a banda Djambê – atração convidada da 73ª Noite Fora do Eixo e segunda edição do projeto em 2017.

Esta foi a segunda vez que a banda passou pela cidade, sendo a primeira em 2012 no Viela Sebo-Café, também em uma Noite Fora do Eixo. Na ativa desde 2003, o grupo já passou por muitas formações e vertentes, mas desde o segundo disco  vem encontrando e construindo uma identidade – garantem os integrantes.

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Foto: Rafael Flores

O Djambê surgiu de uma reunião de amigos de capoeira, que se encontravam quase todos os fins de semana em uma comunidade remanescente de Quilombo. “Nessa comunidade acontece a festa do Candombe, os tambores lá tem mais de 200 anos. Essas referências estão desde o início e fazemos questão de deixá-las em negrito e sublinhadas, por que é importante pro Brasil, que foi construído em cima de sangue e suor preto”, explica o vocalista Emílio Dragão.

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Foto: Rafael Flores

Estas referências afro-brasileiras estão em todas as obras da banda – no entanto é em “Encruzilhadas” que são trabalhadas como cenário principal. “Eram muitas influências de uma forma que a gente se anulava um pouco. A banda teve uma pausa em 2012 e no retorno, eu, que era só produtora, comecei a cantar. A partir daí começamos a construir o ‘Encruzilhadas’ que tem uma cara bem nossa e que o nosso próximo trabalho continua a ter esse ar”, explica Priscila, responsável pelo vocal e sampler.

Além da forte presença da percussividade da negritude mineira, uma traço marcante no que eles trazem é percebido nas letras. Igualdade de gênero, racismo, direito dos animais e o desastre de Mariana são alguns temas que aparecem nas canções.

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Foto: Rafael Flores

“É natural, a gente é questionador por natureza. São os questionamentos que temos no nosso dia-dia e que a gente traz pra música mesmo, a gente entende que a responsabilidade é do tamanho do privilégio. Então se a gente tem o privilégio de tá com o microfone na mão, com a caixa de som amplificada pra um monte de ouvido que tá ouvindo, a gente tem a responsabilidade de falar coisas relevantes”, defende Emílio.

Foto: Rafael Flores

Foto: Rafael Flores

“A gente compõe também sobre outros assuntos, mas a gente optou pelo Djambê ter essa cara, por falar essas coisas que não são faladas. Quando ‘cê vai numa balada, ‘cê não consegue dançar e pensar sobre alguma coisa, normalmente você tá ali só por estar, com outros objetivos”, afirma Priscila.

Ela ainda diz que após o disco “O Mundo não é só Eu” (2011), a banda escolheu mudar o som gente poder falar mais ainda destes questionamentos.  “Alguns são um pouco mais complexos, mas com uma roupagem diferente a gente consegue chegar nas pessoas”, completa.

*Com excessão de Danilo, que é ex-integrante e fundador da banda e estava substituindo a atual percussionista Maýra Motta.

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