Direita Feijoada

50 longos anos após o golpe, o momento atual do país parece ser de uma onda reacionária crescente

Por Lucas Sampaio*

A alvorada daquela quarta de abril em 1964 teve sua falsa motivação ideológica sustentada pela então recente Revolução Cubana que, aos olhos de quem dizia ver, ameaçava uma possível tomada comunista no futuro Brasil do cálice. 50 longos anos após o golpe, o momento atual do país parece ser de uma onda reacionária crescente. Só nos últimos dias, a chocante realidade estatística de que 65% da população julga merecedora de estupro a mulher que se veste de forma “inadequada” ao padrão moralista e as muitas mensagens de apoio e homenagens aos militares dos escabrosos anos de chumbo revelam que a pitoresca Marcha da Família com Deus, que reuniu recentemente meia dúzia de gatos pingados e muitas dúzias de reivindicações dignas de gargalhadas, tem muito mais respaldo do que se possa imaginar.

A antiga lição ensinada nos quartéis ficou no passado e na música de Vandré, mas ainda há quem clame pelas políticas repressivas e até mesmo pela intervenção militar, muitos trazendo de volta (acredite) o velho clichê totalitário do risco de um golpe comunista. Regionalizando a tolice, teríamos petistas em conluio com outros socialistas da América Latina (em geral citam a Venezuela), como se a corrupção e o jogo de poder que – de fato – perpassam o governo do PT fosse novidade no país de Fernandos e Sarneys. Batam-me uma vitamina.

Malfadada e corriqueira, essa linha pouco lógica de raciocínio traz à tona uma dura reflexão. Será que essa significativa parcela defensora da morte de bandidos, do estupro da mulher seminua, da intervenção militar e de tantos outros posicionamentos esdrúxulos difundidos largamente das mesas de bar às redes sociais, não aprendeu nada com nossa cronologia histórica? Ou, pior, estão desaprendendo de forma sutil e voraz conforme lhe é apresentado determinado ponto de vista dos fatos? Digo isso por muito frequentemente estar ouvindo falar a respeito do livro “Esquerda Caviar – A hipocrisia dos artistas e intelectuais progressistas no Brasil e no mundo”, novo pupilo literário da revista Veja, escrito pela versão mais nociva de Diogo Mainardi, o jornalista Rodrigo Constantino. Basicamente, a obra injeta na cabeça do leitor abitolado que as classes financeiramente privilegiadas não podem defender argumentos típicos da esquerda, de liberdade, respeito e dignidade humana sem hipocrisia, uma vez que são ricos.

O trabalho dessa gente é tão bem feito que ultrapassa a classe média que releva (ou aplaude) os anos de chumbo, atingindo também parcela da população desfavorecida, que tem fortíssimo apelo reacionário em suas posições políticas. A famosa frase de Tim Maia que demonstrava desespero pelo nosso país ter o que ele chamou de “pobre de direita” é mais que atual, constituindo seguimento que podemos chamar de “Direita feijoada”, em resposta ao livro do jornalista que defende os interesses de uma revista que historicamente nega-se a reconhecer o quanto o período ditatorial é uma mancha inapagável. Não passarão. A democracia brasileira vitoriosa é a nossa nova alvorada.

*Lucas Sampaio é Advogado e Bacharel em Direito pela Faculdade Independente do Nordeste.