Sem Firula: De nossa parte, e para sempre, Chapecoense campeão da Copa Sul-Americana 2016*

“A Chapecoense de alguma maneira representava um pouco do que somos. Externamente pequenos, mas nunca entregues, sinceramente limitados, mas nunca apáticos, normalmente desconhecido mas nunca ociosos” (Marlon Corrente**)

Por Natália Silva

O Brasil hoje acordou com a notícia de uma das maiores tragédias envolvendo o esporte no mundo. Um acidente com o avião que carregava a delegação da Associação Chapecoense de Futebol, da cidade de Chapecó (SC), para a primeira partida da final da Copa Sul-Americana 2016, teve como vítimas 71 pessoas entre componentes do clube, convidados e jornalistas que trabalhariam no jogo.

Essa semana mesmo eu escrevia que o futebol e a imprensa esportiva caminharam juntos rumo à popularização no Brasil, no decorrer do século passado. Agora juntos, também, terão que enfrentar as dores dessa tragédia que marcará para sempre a história dos dois.

Durante todo o dia foram muitos os textos sobre o assunto. De gente que acompanhava ou não o futebol. Talvez para quem é próximo ao esporte a dor tenha sido diferente porque parecia que a gente conhecia de perto cada uma das vítimas. Mesmo para quem não tinha seguido a trajetória da equipe durante toda a Sul-Americana, estava ali um clube de futebol. Todos eles, por maiores os problemas que possam ter, carregam a força de uma família em suas camisas. Principalmente quando é um clube que tem um município inteiro como seu principal apoiador.

Mas doeu em todo mundo. E não é só uma força de expressão, hoje o mundo todo colocou seus pensamentos em Chapecó. Do mesmo jeito que foi dolorido saber de cada uma das vítimas, foi confortador perceber a capacidade da empatia humana.

Mas entre tantos textos lidos, um me chamou a atenção e pensei que deveria compartilhar aqui. O Marlon Corrente** conseguiu representar meu sentimento em relação a essa tragédia melhor que as minhas próprias palavras. Eu, que ainda superava a lembrança da tragédia com o Brasil de Pelotas em 2009, quando três pessoas foram vítimas de um acidente de ônibus, deixo meus pensamentos e meu coração com a Chapecoense, os jornalistas e todas as famílias envolvidas na tragédia.

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“Ei, olha essa imagem. É a foto do time da Chapecoense vencendo o Real Madrid nos pênaltis na final do mundial ano que vem. Ao menos na minha mente alegórica.

E eu aqui com essa tal cabeça alegórica pensando pra que pombas essas coisas acontecem, mas acontecem.

Se dizem que sempre que uma tragédia acontece um país morre com ela. O que deve fazer um país quando a tragédia atinge o ponto que atingiu?

Renascer.

Talvez essa seja a lição da dona vida pra gente, ou talvez seja apenas pra mim, sei lá.

A Chapecoense de alguma maneira representava um pouco do que somos. Externamente pequenos, mas nunca entregues, sinceramente limitados, mas nunca apáticos, normalmente desconhecido mas nunca ociosos. Se você não tem um pouco de Chapecoense, talvez esteja faltando algum sentido nessa vida camarada.

Tudo isso nesse tal mundo onde os grandes não perceberam que de pequeno, já bastava a vida.

Onde fica nossa tal sensibilidade?

Se é pra ter (não sei quando) a última rodada do campeonato brasileiro, já estou aqui fabulando possibilidades, nenhuma confortável, nenhuma capaz de transmitir o que queríamos … mas mesmo assim, possibilidades.

Na minha cabeça alegórica, a seleção brasileira deveria de alguma maneira jogar vestida com o uniforme da Chapecoense e representar o time no último jogo do campeonato nacional. Isso serviria pra mostrar o quanto somos capazes de dar o nosso melhor quando a dor do nosso irmão se torna a nossa.

Todos os jogos nacionais que restam em 2016 deveriam ser feitos com camisas da Chapecoense, uniforme 1 contra uniforme 2. Isso serviria pra mostrar a importância de nos colocarmos no lugar dos outros.

O Chapecoense já era campeão sul-americano antes mesmo do acidente, que história esses caras fizeram, imagine agora. Aliás, a copa sul-americana deveria se chamar a partir de hoje Copa Chapecoense de Futebol. Isso serviria pra mostrar que tudo que fazemos está marcado, mesmo que a gente não esteja aqui pra perceber, alguém vai.

Os meios televisivos devem criar uma maneira de transmitir a história de todos envolvidos, a começar por seus jornalistas, passando pela tripulação. Isso serviria pra mostrar que nosso legado importa e que a vida nunca termina na gente, somos meio.

As nossas grandes empresas devem investir na reconstrução da equipe, pra que se eternize a grandeza desse clube, mas pra que principalmente os filhos desses jogadores nunca se esqueçam de onde os pais deles foram capazes de chegar. Isso serviria pra mostrar que o nosso meio corporativo não sobrevive apenas de preço mas de valores.

Aliás, o que os executivos das estatais que financiam o campeonato brasileiro estão esperando pra assumir a responsabilidade de não faltar nada para os filhos e famílias desses jogadores?

Minha cabeça alegórica é emotiva, sei lá se essas coisas são possíveis.

Estou aqui ligando o modo racional e enxergando o time da Chapecoense campeão mundial nos pênaltis em cima do Real Madrid. Tempo normal 2 a 2, com 2 gols de Alan Ruschel, e no final os sobreviventes sobem pra receber o prêmio com uma faixa enorme escrito em todos os idiomas possíveis:

Recomeçar é sempre possível.

Valeu por tudo Chape!

Se existe algo útil nisso tudo, talvez seja pra que o Brasil entenda que unidos vamos renascer com vocês.

Somos todos o que vocês eram.”

*Essa frase encerrou a nota oficial do Atlético Nacional de Medelín, clube que disputaria a final da Copa Sul-Americana 2016 com a Chapecoense. Originalmente: “De nuestra parte, y para siempre, Chapecoense Campeón de la Copa Sudamericana 2016.”

**Marlon Corrente é formado em Administração e fundador das empresas Jamal Up e Bemax Marketing. Cedeu, gentilmente, seu texto para reprodução na Sem Firula.

One comment

  • Roberto Joaquim Gonçalves

    Pensei nisso mesmo que a copa sul americana deveria se chamar copa Chapecoense pela América Unida, que foi o que realmente aconteceu acho que o mundo inteiro se uniu pela dor e a América mais ainda, seria uma merecida homenagem ao time, a cidade, ao futebol e a esperança que cada um leva dentro de si

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