Curso ensina marcenaria para mulheres em Conquista

Curso pretende reunir mulheres que desejam aprender a manusear ferramentas pela primeira vez e desenvolver atividades de base da marcenaria artesanal e manual

A marcenaria, prática que evoluiu da carpintaria, sempre foi associada ao universo masculino. A atividade, passada de pai para filho, exige, além da criatividade, conhecimento e manuseio de ferramentas que podem ser consideradas “perigosas” para mulheres.

“Além de ser negado o acesso a mais um trabalho que independe do gênero, o relacionava ao medo, ao pavor, um tipo de crença limitante altamente perigosa e como sempre, castradora. Isso somado a tudo o que o patriarcado nos fez e ainda nos faz”, conta Eva Mota, Designer de Interiores e empreendedora criativa.

A designer é criadora do projeto Pequenos Conteúdos Criativos, conjunto de atividades que começou a realizar em 2017, para discutir e pensar a criatividade. São encontros com bate-papos sobre negócios criativos, escrita, comunicação, acabamento e oficina de introdução à marcenaria. A oficina está indo para sua terceira edição, com duas turmas no mês de abril, uma neste sábado (14) e outra no dia próximo dia 28, no Senac.

Foto: Divulgação

O curso pretende reunir mulheres que desejam aprender a manusear ferramentas pela primeira vez e desenvolver atividades de base da marcenaria artesanal e manual. As alunas irão desenvolver, ao final do módulo, uma peça versátil, presente na memória cultural: um banquinho com pé tipo bandeirola.

Para Eva Mota, que considera a marcenaria menos “pausteurizada” cheia de significados que vão além do seu papel útil, o projeto ainda colabora para a transformação dos impactos das condições sociais e culturais no processo criativo feminino. “Os benefícios vão além dos da prática em si. Que também já é grandioso, afinal, poder construir um móvel, repensar o consumo, articular ideias e criar algo pro seu próprio ambiente ou pra alguém sem depender dos outros, desenvolvendo a criatividade e outros atributos naturais nossos já é espetacular. Foca na destreza, concentração, diminui ansiedade, devolve autoestima e traz empoderamento”, afirma. “Mas o trabalho com marcenaria dentro de um encontro como esse serve muito também pra fazer com que a mulher perceba o que acontece no mundo e que ela pode fazer parte disso. Não é porque ela está aqui no interior que fica de fora”.

Perguntada sobre o porque de escolher fazer o curso somente para mulheres, ela explica que pretende encurtar o caminho para as mulheres que sempre quiseram conhecer ou trabalhar com a técnica sem precisar passar por tanto assédio e descrédito como aconteceu e ainda acontece com ela.

Foto: Divulgação

“Por mais que participe de grupos de mulheres marceneiras, grupos de instrutoras, de meninas que manjam muito do ofício estejam se formando e a resistência diminuindo, o machismo tenta me mostrar que isso não me pertence todo santo dia. Desde ter que lidar com profissionais em obras de clientes ou ir  a uma loja ou a uma marcenaria pra checar projeto ou tirar dúvidas. Recebo olhares ou até mesmo exclamações com ares de surpresa quando pergunto sobre determinada parte ou função de uma máquina. Ainda há desdém, ainda há mannterrupting [quando um homem interrompe uma mulher enquanto ela está falando] e muiiiiito mansplainig [quando um homem dedica seu tempo para explicar algo óbvio a uma mulher, de forma didática, como se ela não fosse capaz de entender], mas sei me impor e eles se calam pra me ouvir. Também já entrei em marcenaria pra tirar dúvida de estudos pessoais e ouvi uma insinuação de favores sexuais em troca da informação”, desabafa.

“É também uma forma de inspirar, espalhar as ideias de autonomia, mais liberdade que a economia e o empreendedorismo criativos praticam entre mulheres que ainda não tem essa consciência. É sobre perder o medo, de fazer por elas mesmas, de dar o primeiro passo nesse universo que nos foi negado e que pode sim virar uma forma de capacitação e sustento”, conclui.

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