Clara Flores: “Vitória da Conquista é uma cidade muito elitista e machista, o que nos coloca muitos desafios”

Neste mês em que o feminismo é lembrado com mais afinco, a Revista Gambiarra tem procurado conversar com diferentes mulheres para entender melhor e contextualizar a figura feminina e suas lutas na sociedade atual

Existem grupos, organizações e pesquisadores que dedicam parte de suas vidas a este tema, Clara Flores faz parte deste universo. Graduanda em Direito pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, ela integra o Núcleo Maria Rogaciana do movimento Marcha Mundial das Mulheres e acredita que a organização é um dos passos para o enfrentamento aoo sistema capitalista e patriarcal.

Revista Gambiarra: Quando e porquê resolveu se organizar em um coletivo feminista?

Clara Flores: Conheci o feminismo quando entrei na universidade, participando de espaços auto-organizados de mulheres em encontros estudantis. Me interessei e comecei a ler vários textos, blogs etc. Daí senti a necessidade de me organizar também, porque percebi que não basta um enfrentamento individual frente a um inimigo tão grande que é o sistema capitalista e patriarcal, percebi que era preciso avançar coletivamente.

R.G.: Quais as linhas de atuação do coletivo em que você atua, a Marcha Mundial das Mulheres?

C.F.: A Marcha Mundial das Mulheres no plano internacional possui quatro eixos principais de atuação:Autonomia econômica das mulheres; Bens comuns e Serviços Públicos (luta por equipamentos públicos, como creche, saúde da mulher, lavanderias e restaurantes públicos, mobilidade urbana); Paz e desmilitarização; Violência contra as mulheres.

Cada um desses eixos se desdobra em pautas e reivindicações diversas, que devem ser priorizadas a depender de cada realidade e conjuntura local. Aqui em Conquista, a nossa atuação até agora tem focado principalmente a questão de combate à violência, como a ação que construímos contra o trote machista na UESB, intervenções urbanas denunciando a violência, a ação contra a banda Abrakadabra, dentre outras. Mas também estamos desenvolvendo outras ações, como a construção, em conjunto com os outros movimentos sociais, do Plebiscito Popular pela reforma política. Para nos organizar melhor, dividimos nosso núcleo em três frentes: estudantil, popular e camponesa.

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Foto: Arquivo Pessoal

R.G.: Qual a importância da auto-organização e em que ponto que essa luta pode ou não envolver os homens?

C.F.: Nós aprendemos com a história que a auto organização é ferramenta fundamental da luta feminista. Nós, que somos bombardeadas diariamente por uma ideologia que coloca as mulheres em disputa, como se fôssemos necessariamente inimigas, adversárias (invejosas, recalcadas etc.), precisamos construir relações de companheirismo, que gerem uma identidade política coletiva entre nós, que é o que nos unifica, que nos coloca em movimento. Os espaços auto organizados nos possibilitam compartilharmos experiências, opressões vivenciadas, que muitas vezes não conseguimos falar na presença dos homens. Inclusive porque, muitos deles, embora sejam nossos companheiros de militância, continuam reproduzindo o papel do opressor em muitas situações. Assim, os homens devem ser nossos parceiros nessa luta, mas devem também saber respeitar o protagonismo feminino.

R.G.: Como você enxerga a luta feminista em uma cidade como Vitória da Conquista?

C.F.: Vitória da Conquista é uma cidade muito elitista e machista, o que nos coloca muitos desafios. Por outro lado, a região sudoeste é também um lugar onde existem muitos movimentos sociais atuando, existe uma tradição de luta muito forte, principalmente no campo, criando um cenário favorável para as lutas sociais unitárias.

R.G.: A universidade é um lugar confortável para a luta feminista? Onde estão os limites desse lugar (universidade)?

C.F.: A universidade é um terreno fértil para despertar pessoas para a política, porque é um espaço de busca por conhecimento, onde existe muita abertura para ideias novas… Mas também pode se tornar um perigo se a perspectiva de atuação se restringe a esse espaço. É o que acontece com a questão das mulheres: vemos uma multiplicação de grupos de estudos de gênero nas universidades brasileiras, mas muitos deles estagnam no academicismo, e perdem a perspectiva da luta, de construir o feminismo nas ruas. Acho que o caminho é instrumentalizar a universidade, com as facilidades que ela proporciona, para construir a luta feminista para além do mundo acadêmico. Existem experiências bem interessantes, de projetos de extensão na temática de gênero, com atuação nos bairros, escolas, zona rural etc.

R.G.: É possível ser feminista no lugar onde a opressão é mais naturalizada, como a casa de pessoas menos favorecidas ou casas de famílias extremamente tradicionais?

C.F.: Sim, é possível. É, inclusive, nas famílias mais pobres onde existem muitos exemplos de mães solteiras, lideranças comunitárias, mulheres batalhadoras cujas próprias condições de vida as levam a construir estratégias cotidianas de resistência, enfrentamento ao conservadorismo, construção da sua autonomia econômica e de vida. E é também nesta classe onde a opressão recai mais pesadamente sobre as mulheres, que sofrem dupla ou triplamente –  por serem mulheres, por serem pobres, por serem negras -, é onde a violência é mais brutal, onde as políticas públicas não chegam. Logo, é onde nós feministas devemos incidir, a partir dessas contradições. Logicamente que a abordagem não pode ser a mesma que utilizamos na universidade, é preciso planejar com muito cuidado a atuação no meio popular. Para isso, é importante também conhecer as experiências e sínteses desenvolvidas pelos movimentos sociais, a educação popular, o trabalho de base. Atualmente, nós do Núcleo Maria Rogaciana estamos nos desafiando a nos inserir no meio popular, já iniciamos alguns trabalhos, inclusive no dia 09 de março participamos de uma atividade bem interessante que levou a discussão sobre feminismo para uma igreja, no bairro Senhorinha Cairo.