Cidinha da Silva: A escritora que tem o cotidiano como matéria-prima

Prestes a lançar seu mais novo livro “Sobre-Viventes!”, sexto livro de crônicas e nono da sua carreira, a escritora conversou com Alane Reis, da Revista Afirmativa

Por Alane Reis (Revista Afirmativa) 

Cidinha da Silva é uma escritora mineira morando em Salvador (BA). A fluidez da sua escrita faz sua obra alcançar variados gêneros textuais. Ela escreve crônicas, contos, poesia, literatura infantil, tem projetos para romances, quadrinhos – Cidinha diz ter fascínio e encantamento pelas palavras. A escritora está lançando em Salvador seu próximo livro “Sobre-Viventes!” (Pallas, 2016), dia 13 de maio, na Loja Katuka, Pelourinho.

Em “Sobre-Viventes!”, sexto livro de crônicas da autora e o nono de sua carreira literária, Cidinha analisa o cotidiano da política e da cultura no Brasil, apresenta críticas de gênero e sexualidade, lê o mundo com lentes aguçadas em perceber a naturalização do racismo e do sexismo. Neste livro, o cotidiano é tema e obra-prima. Ela fala de teatro, novela, das manifestações de junho ao Congresso Nacional, dos bares de Belo Horizonte ao show de reggae na Capital Federal. Múltiplas paisagens para múltiplas abordagens.

É marca das crônicas da autora o olhar atento e minucioso sobre a mídia, e neste campo quase nada passa sem suas análises – da mídia empresarial tradicional, aos midialivristas e setores da comunicação contra hegemônica. Os temas da mídia já se apresentaram na literatura de Cidinha em um livro inteiro dedicado ao tema, “Racismo no Brasil e Afetos Correlatos” (Conversê, 2013), e reaparece como um dos temas centrais de “Sobre-Viventes!”.

Em uma entrevista com Cidinha da Silva o papo rende, a conversa segue fluída, respostas incentivam novas perguntas. Falamos sobre seu processo de formação como leitora e como escritora, sua paixão por quadrinhos, afetividades, indignações e projetos. Muito assunto para pouco tempo de conversa, mas coube tudo em uma entrevista só, confiram:

Na apresentação de “Sobre-Viventes” que tem sido divulgada nas redes, tem uma miscelânea de assuntos que quase sempre versam sobre lugares de raça e gênero, mas é perceptível que a crítica a mídia é tema central do livro. Se dedicar a análise do discurso da mídia tem sido um compromisso da sua literatura, por que é importante produzir literatura que debata o conteúdo veiculado pela mídia?

Eu não caracterizaria o caminho que tenho seguido como “compromisso”, mas como decorrência do mundo em que vivemos, dominado e manipulado pelas ações midiáticas. Manter o olhar crítico e escrever sobre isso é imperativo para quem tem o cotidiano como matéria prima, como fonte primária. É o meu caso, pois as intervenções midiáticas alteram nossa realidade e nos conduzem pelas estradas propostas pelos que sempre detiveram privilégios e exploraram os subalternizados. Sou uma escritora deste tempo e preciso também produzir narrativas que dialoguem com o tempo que nos abriga e conduz, além da produção ficcional.

Como você avaliaria a atuação da mídia tradicional na cobertura dos fatos políticos atuais?

A mídia hegemônica tem agido de maneira criminosa contra os interesses do povo, a Constituição, o Estado Democrático de Direito, as conquistas trabalhistas, a superação da fome e da miséria, a ascensão cultural e econômica dos que compõem a base da pirâmide socioeconômica no Brasil. Não age contra a senzala, como muitos de nós pensamos, equivocadamente. Nós já saímos da senzala. Eles agem contra o espírito-libertador- quilombola. Isso é o que incomoda, o espírito-libertador-quilombola.

É uma cobertura golpista, desonesta. É o braço mais operativo do golpe contra a democracia. Do golpe que pretende derrubar uma Presidenta legitimamente eleita em um processo livre e limpo. E o mais importante, uma Presidenta que não cometeu crime de responsabilidade que pudesse justificar seu afastamento. Há pouco começou a circular a notícia de que os proponentes da ação de impeachment aceita por Eduardo Cunha (Miguel Reale e Janaína Paschoal) foram contratados por R$45.000,00 (quarenta e cinco mil reais) pelo PSDB. Pelo menos foi o valor “confessado” por Janaína (duvido que o outro jurista tenha recebido tão pouco). É uma armação de quinta categoria para a qual a mídia hegemônica construiu uma versão “séria” e acachapante.

É crescente o número e a abrangência de sites e portais de notícia que tem como prioridade editorial os fatos políticos que dialogam com temas sobre relações raciais e de gênero e a violação dos direitos humanos – entre estes, muitos são assumidamente ativistas. É possível visualizar uma geração densa de comunicadores e jornalistas negros atuando de maneira independente. Sei que essa parcela da mídia não foge às suas análises, já li um texto opinativo seu a respeito, mas infelizmente não consigo me lembrar o nome. Qual a sua opinião sobre a atuação destes veículos?

As narrativas contra-hegemônicas ou não-hegemônicas são fundamentais. Elas constroem a história viva. Abalam os pilares da casa-grande. Fazem com que não seja necessário escrever a história d@s vencid@s daqui há 20 anos. Não, esta história está sendo escrita agora por essa mídia alternativa, no sentido da alteração, do enfrentamento do status quo, do registro de dimensões dos acontecimentos desprezadas pela mídia hegemônica. Junto, obviamente, com os sujeitos da história.

A que se deve o pouco hábito de leitura do brasileiro em geral? Quais são suas estratégias para seduzir leitores?

Então, vamos por partes. Vários analistas da leitura têm dito que o principal ativo de promoção da leitura no mundo contemporâneo é o tempo. As pessoas leem cada dia menos porque não têm tempo para ler. A leitura de um livro é exercício de contemplação da palavra, de interação com um movimento, um ritmo proposto por uma autora ou autor. Nesse mundo tão corrido, quem é que se senta na varanda, no sofá, ou se deita na rede para ler? Quem é que para? E veja que estamos falando de pessoas que trabalham e têm tempo livre e podem escolher o que fazer com esse tempo. Não estamos falando de pessoas que trabalham como burras de carga, das quais a FIESP acha que pode roubar a mísera hora de almoço. Gente que despende entre três e seis horas diárias para deslocar-se para o trabalho e voltar à casa. Na maior parte das vezes em pé, amontoada em metrôs, ônibus e trens super lotados. No caso das mulheres, expostas ainda a situações de abusos sexuais.

Mas, espera, a pergunta era sobre o “pouco hábito de leitura”… sim, o gosto pela leitura está diretamente relacionado às condições de vida, às possibilidades de fruição, à existência de tempo livre. As afirmações de que “quem quer ler o faz em qualquer lugar” são bastante úteis para uma relação com o livro que não seja marcada pelas limitações, pelas precariedades.

Isso posto, podemos abordar outros fatores limitadores, tais como o baixo investimento na promoção do gosto pela leitura (veja bem, falo em gosto, não em hábito) na escola, durante o ensino básico; o despreparo de professoras e professores para lidar com a literatura como espaço de liberdade, pelo qual se deve transitar sem definir respostas certas e erradas, sem a futurologia do “que o autor quis dizer com isso ou aquilo”; a existência de prática deliberada de constituição do livro (dos saberes que ele contém) como elemento de opressão das classes populares e das demais pessoas que não compõem a elite intelectual que produz livros. O livro não é vendido como um objeto-amigo, mas como um instrumento de poder das elites sobre o povo, que o teme e venera como algo distante de si; ausência de campanhas massivas de popularização do livro e de políticas públicas para tornar a leitura acessível a grandes grupos de pessoas; preço elevado dos livros e encastelamento deles em livrarias que não temos o hábito ou a possibilidade de freqüentar; por fim (é o que me ocorre agora), existe a questão da falta de representação de grupos não-hegemônicos na maior parte da literatura de grande circulação no mercado editorial. As pessoas gostam de livros nos quais se vêem, se reconhecem, que contam histórias que lhes são caras.

Quanto a “estratégias para seduzir leitores”, sou uma autora que escreve para ser lida, então, não utilizo linguagem cifrada. Quero que a sofisticação aconteça pela poesia, pelo ritmo, pela música do texto, em linguagem simples, não empolada. Isso do ponto de vista da escrita. Do ponto de vista da circulação da minha obra, tenho disposição para ir onde meus prováveis leitores e leitoras estão, onde vivem.

A leitura e a escrita é uma compulsão para você?

A leitura e a escrita não são compulsões para mim. São necessidades vitais, mas não constituem compulsão, não. Nem tenho tempo para ser compulsiva. Minha vida é muito certinha e disciplinada para dar conta de fazer as muitas coisas que faço ao mesmo tempo, tais como: estudar, pesquisar, realizar trabalhos remunerados, estudar literatura, ler literatura, escrever literatura e, obviamente, cuidar de mim e dos meus afetos. Não tenho espaço para compulsões, não. Mas sou do tipo que fica triste se não tenho tempo para escrever.

A Bahia é um estado que corriqueiramente é cenário das suas crônicas, puxando rapidamente da memória me lembro de duas que mais que marcaram enquanto leitora: uma foi no passado, sobre a chacina do Cabula, por razões óbvias, e a outra foi no carnaval deste ano, que você analisa a precarização das condições de trabalho na festa. Qual a sua relação com a Bahia e as motivações que estado tem para suas escritas? O que te desperta interesse nas características sociais do estado?

Não sei se tenho uma resposta objetiva e lógica à pergunta, mas tenho retalhos para uma colcha que podemos tecer junt@s (eu, você e quem nos dá o prazer da leitura).  Penso que Salvador, a cidade, é que está muito presente na minha obra, não o estado da Bahia, que ainda conheço pouco. Para começar eu sou mineira. Em Minas não tem mar, como se sabe. Então, toda pessoa mineira em algum momento da vida vai conhecer o mar de verdade, além do mar da TV. As pessoas da minha infância e do meu grupo social iam para as praias de Vitória (ES), faziam excursões, alugavam ônibus. Minha família nunca foi. Alguém pode perguntar pro que para Vitória e não para o Rio, já que a distância é a mesma. Porque o Rio é uma cidade turística, mais cara e mais discriminadora com farofeiros. A gente conhecia muito rio de água doce, muita cachoeira, mas o mar, não.

Conheci o mar em Salvador, na minha terceira viagem para fora de Minas (a primeira foi para Brasília e a segunda para São Paulo) quando tinha vinte ou vinte e um anos. Encontrei em Salvador também, dezenas de pessoas de dreads, coisa que eu não via no meu círculo de convivência em Belo Horizonte. Lembro-me que fui a alguma celebração na Casa do Benin e eram tantos rastas por metro quadrado. Altivos, senhores do próprio cabelo. E mais, mulheres de dreads também. Eu só tinha visto (por foto) os dreads de Trace Chapman, Ângela Davis, Woopy Goldeberg, de mulheres massai.

Outra lembrança forte de Salvador, ainda em Minas, que compunha meu imaginário, eram os blocos afro, a batida dos tambores da Bahia, tão diferentes dos tambores mineiros. Já com 23, 24 anos, fizemos aqui o SENUN (Seminário Nacional de Universitários Negros), que foi algo marcante na minha vida. Antes disso, conheci Luiza Bairros, não me lembro exatamente da situação, mas além do encanto pela retórica dela, tinha o sotaque que eu queria desvendar. Só mais tarde soube tratar-se de uma gaúcha vivendo em Salvador.

Lembro-me que uma vez, visitando uma casa tradicional de candomblé, conversei com uma Ebomy e disse a ela (tinha uns 26, 27 anos), “estou pensando em me mudar para Salvador. O que a senhora acha”? E ela me respondeu: “não venha, não, minha filha. Salvador não é bom pra gente trabalhar. Você tem o seu emprego lá no Sul, continue lá e venha aqui pra passear”. Aquilo me marcou muito e me fez olhar a cidade com outros olhos, a enxergar com mais acuidade seus paradoxos. Posteriormente, quando tive convites e possibilidades de morar na cidade, eu sempre me lembrava daquela senhora e pensava: “do que vou viver? Como vou viver? Em que vou trabalhar”? E mesmo tendo a possibilidade de partilhar a vida com baianas que amei, não me senti segura para aceitar os convites.

 A vivência numa casa de candomblé me colocou em contato com famílias de  trabalhador@s negr@s da cidade que eu ainda não conhecia, de uma realidade por desbravar. E pude ver como e quanto as pessoas negras de poucos recursos financeiros trabalham  nessa cidade e o quanto são exploradas. Creio que me encanta muito na cidade a forma como as pessoas conseguem viver, tirar onda, ter humor, desfrutar o mar, a despeito do racismo estrutural, cotidiano e exterminador.

Gosto muito também de um jeito de ser livre das mulheres negras que só vejo aqui. Só para dar um exemplo, embora a liberdade não se reduza a isso, não vejo em outro lugar do Brasil, mulheres negras bebendo sozinhas em bares, restaurantes, na freqüência que vejo aqui. Isso sempre me chamou a atenção. Acho que é um exercício de liberdade muito legal. Calhou de passar na seleção de um doutorado na UFBA  e cá estou, vivendo a cidade como posso, curtindo menos do que gostaria, mas, escrevendo bastante sobre ela e seus personagens.

Fale das suas obras: De onde surge sua paixão por crônicas? O que te motiva a fazer literatura infantil? O que tem de mais atraente em escrever contos, especialmente dedicados a crianças? Qual seu público alvo central? Pode falar de projetos e aspirações futuras?

A paixão pelas crônicas surgiu ainda na infância, mais especificamente pela leitura do Drummond cronista que conheci antes do Drummond poeta. Comecei a escrever literatura para crianças porque quando lancei meu primeiro livro, “Cada tridente em seu lugar” – a primeira edição que era um livro de bolso -, uma sobrinha de seis anos, em processo de alfabetização, folheava o livro e lia uma letra, uma sílaba, uma palavra. Aquilo me emocionava, mas também desconsertava por se tratar de um livro para adultos, com letras e espaçamento pequenos. Eu explicava isso para minha garotinha, dizia que não era um formato adequado à leitura dela, como se pedisse desculpas. Ela, meio impaciente, me disse: “tá bom, tia, e quando é que você vai fazer livros pra crianças”? Essa pergunta foi a impulsora da minha escrita. A primeira tentativa, “Os nove pentes d’África”, por meio do qual eu quis conversar sobre a morte com as crianças, não é exatamente um livro para crianças. Continuei tentando e em “Kuami” e “O mar de Manu” obtive resultado mais adequado. Tem um monte de outras idéias que aguardam o tempo disponível para escrever.

Quanto a projetos futuros, ainda este ano lançarei um livro de poemas por uma editora de mulheres de São Paulo chamada Me Parió Revolução. Estamos trabalhando a publicação. Tenho projetos de quadrinhos a desenvolver e quero organizar o tempo da vida para escrever romances.

Você é uma escritora blogueira. O que a internet te apresenta de interessante como plataforma de publicação da sua escrita?

A internet é ágil, não é? Também esparrama, espalha, alcança lugares múltiplos num tempo rápido. Na internet rola uma disputa de narrativas contra-hegemônicas e me parece que é um espaço a ser ocupado por diferentes perfis e leituras do mundo. Eu o ocupo como posso. Com poesia. Galhardia. Humor. Acidez. Ironia. Amor. De armas, caneta e flores nas mãos.