Café com Letras: Triste Persiana

Diego Nascimento estreia na Revista Gambiarra  como colunista do “Café com Letras”


Triste, triste, tristíssima. Ora, se eu fosse uma persiana, pediria de imediato o meu fim, com seguimento de que há uma enormíssima vida injusta para comigo; uma vida sem descuido, sem par, escura. Eu, quando de repente sou uma persiana, sou visto para ser ignorada em seguida, porque o sol tem de entrar, o ar tem de entrar, a borboleta tem de entrar, e eu, dispersa nos meus limites de persiana e sucintamente esquecida; perenemente observada por um beija-flor móbil, pairando sobre os fios de energia elétrica, no canto da rua que observo do meu posto desta sala de apartamento, não sei se duramente ri, se angustiadamente está piamente consolando-me, ou se está no seu posto de beija-flor, assim, posto a posto, e eu sei que beija-flor beija flor, não fio. Mas quem há de dizer isto a ele? Ela sabe que solenemente oculto o sol.

Não tenho estado muito noutros lugares. Pra falar a verdade, mal me lembro a último vez em que saí; em sair por sair, cuja ideia seja só sair, tomar um ar fresco  na tez, sentir a barulho da cidade assolar os sentidos e trazer o lenitivo da civilização. Não só ver, mas reparar nos preceitos do que, em dom de realizar, o torna viés notório um dia.

Há uma mulher que me bole, me abre e me fecha; recebe visitas estranhas. O eletricista vem com fequência porque ela aparenta ter problemas com o chuveiro, havia um homem; ruivo e magro, parece um irlandês desocupado, vinha sempre que ela não estava. Vivia aqui e hoje não mais; acho que algo aconteceu, eu não sei, persiana não ouve. Todos os dias ela lê o jornal ainda vestida de camisola, chora todas as manhãs esta tal mulher companheira, e toda vez que chora, espero, penso que ela vá me fechar e para sempre nunca mais abrir-me, porque não quer ver o mundo, ser incomodada… e de vez em quando, penso que o problema sou eu, por modo de que às vezes me embaraço e também me fecho sozinha; sou uma persiana doente. Mas… se tudo fosse tão como penso, meu deus das persianas, aquele beija-flor, aquele que estava alli e não está mais, aquele que foi embora, serás um desempregado? O que faria dele um agora eletricista e não beija-flor? E eu, o que seria? Se eu pudesse escolher, talvez um jornaleiro que leva o mundo para dentro da casa alheia através de notícias — e muitas vezes um mundo tristíssimo, muitas vezes o Vasco perdeu e muitas vezes há um absurdo atrás de outro absurdo e embaixo desta notícia um outro absurdo que faz o primeiro absurdo parecer uma coluna de fofoca, que os ramalheres estão desaparecidos e que os beija-flores estão loucos e quedos. Há de ser este o motivo do choro da minha companheira.

Se ela me olha e pensa no meu defeito, presumo que deve achar-me uma coitadinha desatinada, mas que ainda tenho serventia, mas serás que tens noções de que este problema, este desvario involuntário poder ser uma saudade de outra persiana, que agora está em outro lugar, vivendo de amor, comprando pão e leite nas padarias das persianas para toma café da manhã de amor com tal persiana a que agora ama, e eu, aqui, vivendo com distúrbios… esperando ser chamado de outra coisa, esperando uma mudança de nome, esperando ser abraçada e contida.. A menos se tivesse noção de que execro fazer o que me sou imputada.

Mas eu, leitor querido, não sou uma persiana, embora haja empatia, não sou.
Mas é triste, tristíssima… Coitada!