Café com Letras: O girassol de Nelson

Domingo é dia de crônica na coluna “Café com Letras”!

Junto às árvores do bosque de Saint-Etienne, havia um flor amarela, derrubada pela luz do sol. Passara por lá, um menino sem destino; era Nelson, carpindo a solidão da sua alma. Vinha ele da escuridão dos olhos lentos, ouvindo as horas contínuas passar.

Nelson, então, ao mirar a flor decaindo, estufou o peito e correu, para que ela não desabrochasse no chão da amargura. Pouco tempo depois, não com muito êxito, sentiu suas mãos aparar um corpo morto, de uma flor morta em seu derradeiro momento de existência.

Concomitante, os olhos de Deus olharam-o. Gotas de chuva caíam despencadas de dor, como se, a vida inteira, Nelson tivesse amado aquele girassol. Agora resíduo de espírito de girassol; mais tarde, nada será.

Suas bandas despediam-se das mãos do menino ermo. Como se o girassol o escolhesse amar, e á força do destino, logo despedir-se. Eu vou, ficas tu, alguém terás de morrer. Morro eu, vives tu. Guardes a responsabilidade, Nelson, de matar as lembranças dessa flor, de rasgar as cartas não lidas, de encerrar o exercimento de vivo; os olhos, todos eles, são espectrais. Não se pode vencer os vidros das janelas da mente.

Rapidamente pessoas foram se agrupando ao redor do assaz sofrimento. O céu escureceu; trovejava. Era uma tragédia só. Um velho desalmado, piamente se regenerou. A donzela que fugiria mais tarde para os braços do amado, desfez as malas, resguardou os vestidos de cetim, as meias e luvas. O café barateou-se no café da esquina; agora se ganhava cortesias, alguns biscoitos. O perito, que não chiorava mais, agora chorava sim. A policia cessou os tiros. Não morre mais ninguém. É proibido morrer. Não se pode desmistificar aquela história. Não, ninguém morre. Nem um cachorro de rua.

Um artista posicionara sua tela frente a Nelson, e, vendo a tinta desmontar sob a chuva, continuava a pintar a cena da morte do girassol. Nelson, de joelhos, a chorar, não notara as especificações que o destino apresentou.

Quisera o mundo deixar de existir. Ainda que o mundo fosse muito grande, nada seria maior que a dor da morte do girassol. Ele morreu, em seguida, choveu, depois, sol não houve mais. Aquele fora o primeiro girassol de Nelson, e o último. Ambos morreram como puderam. Todos os presentes morreram, se não biologicamente, sentimentalmente.

Nelson nem sequer falava francês.