Café com Letras: O casal do Catete

Em sua nova crônica na coluna “Café com Letras”, nos apresenta um casal carioca no anos 40

Por Diego Nascimento

Rio de Janeiro, 1940

Suponhamos que, no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, exista um homem. Este homem, muito muito além do que comum, tenha uma mulher. Ela, mulher a ter este homem, que é todo seu inteiro homem. O Casal do Catete, diriam os subconhecidos dos bairros mais próximos. Eram tão conhecidos, que um dia saíra uma nota no jornal; fazia analogia a um senhor — do Méier — e uma papagaia, que o obedecia, e repetia intermitentemente os seus dizeres; era uma papagaia lá, Lígia cá, os homens não têm nada em comum. Antoine não comprava nunca sementes de girassol.

Sem contar os hábitos. Antoine todos os dias lia o jornal do dia passado. No dia seguinte, lia o de hoje — até então que seria passado amanhã. Sempre pegava as notícias em atraso. Sempre dizia que esperava o mundo acalmar o furor, para, em última instância, promulgar sua opinião. Não gostava nunca de barulho, tinha cabelos brancos, dentes amarelados… Era de poucos amigos, nunca tivera um amigo, para que se pudesse pôr em rigor a possibilidade de tê-lo como único. Sempre conversava muito com muitos, embora isso, não guardara afeto; era muito íntimo. Ninguém nunca rompia aquelas barreiras. Considero esta ideia como mais torta que as traves da gávea.

Perfeitamente espero que entendam, que toda loucura aos olhos de um louco, é um simplório ato imperceptível.

Era domingo. Antoine abrira o jornal de sábado.

— Deus tenha piedade, disse Antoine, repreendendo. Mais dez anos e irá se instaurar uma guerra. Os italianos estão agindo com destreza. Típico dos italianos, sorrateiros, calmos. Os franceses não são assim, não são.  Deu-se o luxo de comprar o que dizer com tamanho ímpeto.

Lígia não ouvira. Estava regando as plantas, na varanda. Antoine insiste, por último.

— Os franceses não são assim.

Estara de mal humor, o Fluminense havia perdido no dia anterior.