Arraiá da Conquista: um breve olhar sobre a nova festa

Festa oficial chegou nos distritos, retomou Vila Junina , mas continuaram de fora os projetos como Memorial do Forró e Concurso de Quadrilhas

Por Jéssica Sande e Rafael Flores

O forró pé de serra, o frio conquistense e o cheiro da comida típica dessa época aconchegante que é o São João, marcaram as noites de 21 a 23 de junho no Centro Cultural Glauber Rocha.

O destaque da festa este ano – além da mudança do nome de “Forro Pé de Serra do Periperi” para “Arraiá da Conquista” – foi o fato de a Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista junto com a Secretaria Municipal de Cultura terem escolhido investir na festa também nos distritos do município e expandindo a programação para espaços pouco explorados por este tipo de iniciativa, como a feira do Bairro Brasil.

Trio Aconchego na feirinha do Bairro Brasil/ Foto: Vitor Moura

Trio Aconchego na feirinha do Bairro Brasil/ Foto: Vitor Moura

De acordo com o atual prefeito Herzem Gusmão, a gestão resolveu levar atrações para esses lugares, que são verdadeiras cidades no interior, com simplicidade e investindo criteriosamente os recursos, pois, ainda segundo ele, essa festa movimenta a economia do município de forma decisiva.

Estas ações já haviam sido experienciadas pelo governo de Guilherme Menezes, porém sem muita publicidade (no caso da zona rural) e continuidade (no caso do bairro Brasil).

Público curte a festa no distrito de José Gonçalves/ Foto: PMVC

Público curte a festa no distrito de José Gonçalves/ Foto: PMVC

A descentralização é importante já que é exatamente fora do ambiente urbano onde o festejos juninos se encontram mais próximos das suas raízes. Foram contemplados com palco e atrações os distritos de Iguá, Inhobim, José Gonçalves, Pradoso, Bate-pé, Veredinha, Cercadinho, Dantilândia, São Sebastião, São João da Vitória e Cabeceira da Jiboia.

“Nós não tivemos praticamente investimentos externos. Tivemos algumas emendas de poucos deputados, como Jean Fabricio, Hildécio Meireles e Jurandir Oliveira. No passado a festa tinha patrocínio da Petrobras, mas nós entendemos que o dinheiro publico tem que ter outras finalidades e outras prioridades”, conclui.

A decoração do Glauber Rocha ficou por conta do artista plástico Arisson Sena, que trouxe traços contemporâneos para a festa. Gravuras de Santo Antônio, São João e São Pedro coladas em tecidos de chita em um estilo manual preencheram o ambiente, que ganhou uma cara acolhedora e natural, remetendo à simplicidade das raízes da festa de São João.

Mudança do nome

Ao ser questionado sobre a mudança no título do evento, o qual havia passado 8 edições sem alterações – o prefeito confirma ser uma escolha política: “antes era um governo, agora é outro”.

Gusmão ainda conta que não partiu dele a escolha do nome. “Deixei com a liberdade total para a secretaria de cultura (Tina Rocha). Arraiá da Conquista é um nome belíssimo. Então, nós estamos aqui valorizando o nome da prata da casa”, explica.

Herzem concede entrevista à Revista Gambiarra/ Foto: Raísa Lima

Herzem concede entrevista à Revista Gambiarra/ Foto: Raísa Lima

Enquanto a antiga versão homenageava a nossa estrutura geográfica e os habitantes originais (São João Pé de Serra do Piripiri), o novo nome remonta ao primeiro título da cidade (Arraial da Conquista), logo após o famoso massacre aos índios do território.

A Cultura que resiste

Repetindo o que a gestão passada fez em 2016, alguns projetos que outrora fizeram parte dos festejos oficiais do município continuaram de fora. Não foram realizados: o Memorial do Forró, o Concurso de Forró e o Concurso de Quadrilhas. As atrações musicais foram todas da terra e selecionadas através de edital.

A ideia de um trio forrozeiro tocando em uma vila cenográfica repleta de referências e cheiros sertanejos foi retomada. Depois de um ano sem ser realizada, a Vila Junina, montada dentro do centro cultural voltou com todas as suas características intactas, também com a assinatura de Arisson Sena.

Entrada da Vila Junina/ Foto: Raísa Lima

Entrada da Vila Junina/ Foto: Raísa Lima

Dentro dela, continuamos a encontrar a chamada Casa do Cordel, mais um espaço que resistiu às mudanças da festa e tem uma grande importância onde os Poetas e Cordelistas Ailton Dias e Andrade vem fazendo o papel de preservação da cultura nordestina.

Andrade conta que esse espaço não é apenas importante para a divulgação dos cordéis e poesias, mas que também existe um sentimento de troca com a população, ele não só conta a historia do Cordel e do Cangaço como também ouve historias das pessoas que por ali passam, ele diz que: “Ouço muitas historias maravilhosas, aqui preservamos a amizade e damos vida às nossas tradições.”

Antônio Andrade/ Foto: Rafael Flores

Antônio Andrade/ Foto: Rafael Flores

Segundo Andrade, a cultura do Cordel tinha desaparecido há uns 35 anos e voltou há mais ou menos 10 – através de pesquisadores como ele e Ailton Dias.Por conta do tamanho do espaço físico, nem todo material que eles tem disponível consegue ser mostrado na casa. Ailton Dias diz que: “Nós lutaremos e vamos lutar com unhas e dentes pra não deixar o cordel morrer”.

Andrade quando indagado sobre o desaparecimento da cultura do São João país a fora, diz que Conquista ainda preserva essa tradição e espera que mesmo com a mudança de governo continue assim. Ele diz também que não viu o desaparecimento dessa cultura pois: “Nossa vida é dinâmica e vai se modificando com o tempo e passando por um processo de adaptação e urbanização.”

“Nós não temos mais aquele São João de “São João passou aqui” e que é cantado por Mão Branca, mas é porque dentro dos espaços urbanos as tradições vão se adaptando.” conclui dizendo que mesmo Conquista sendo bombardeada com que ele chama de Forró Plástico,aqui ainda se preserva o Forro Pé de Serra.

Amor de Cangaceiro

Uma estória vou contar

Prestem bem atenção

A estória de um cangaceiro

Lá da minha região

Corajoso e destemido

Nunca levou um arranhão.

Seu nome eu vou falar

Espere um pouco vou dizer

Sem muito arrodear

Vocês vão entender

A fraqueza desse cabra

Por causa de um bem querer.

Apaixonou-se por uma moça

Por nome de Josefina

Jeito lindo e delicado

Com rostinho de menina

Ficava desmatelado

quando via a flor divina.

(Trecho do Cordel Amor de Cangaceiro de Ailton Dias)

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