Arakin Monteiro: “Toda reivindicação é legítima porque quem gosta de silêncio é ditadura” (Parte 1)

Arakin Monteiro é Doutor, mestre e graduado em Ciências Sociais pela UNESP/Marília, com foco nas Sociologias do Trabalho, da Cultura e do Ciberespaço

A Revista Gambiarra conversou com o Professor Dr. Arakin Monteiro sobre as relações de trabalho e o ciberespaço. Dentre os eixos, conversamos sobre a precarização do trabalho que vêm se intensificando cada vez mais na realidade do modelo neoliberal da economia capitalista. Além disso, tratamos de assuntos como Copa do Mundo e as Jornadas de Junho, que marcaram o ano de 2013 e até hoje são analisadas e avaliadas pelas diversas perspectivas teóricas.

Arakin Monteiro é Doutor, mestre e graduado em Ciências Sociais pela UNESP/Marília, com foco nas Sociologias do Trabalho, da Cultura e do Ciberespaço. Atualmente, é pesquisador-membro do GPEG/RET (Grupo de Pesquisa Estudos da Globalização – Rede de Estudos do Trabalho) e colaborador do OBSCOM/UFS (Observatório de Economia e Comunicação da Universidade Federal de Sergipe ).

Confira a primeira parte desta conversa:

André Thibes: Como você avalia o contexto de acumulação do capital observando o desenvolvimento das novas tecnologias?

Arankin Monteiro: Primeira coisa que nós temos que discutir é que as tecnologias em si não necessariamente representam uma revolução das formas de ser trabalho, sob o modo de produção capitalista da mesma forma como ela foi apregoada. O que se pode observar é que existe um grande conjunto de simbolismos, ideias e ideologias que circulam nas tecnologias de informação e que as vendem como algo redentor. Como algo que iria supostamente eliminar o ser humano da sua condição servil diante do trabalho, da forma como ele se realiza na sociedade contemporânea. As tecnologias da informação, quando atreladas ao trabalho, em primeiro lugar, vendem mais uma ideia do que propriamente uma relação concreta no sentido da sua emancipação. Antes de emancipar o trabalhador ela emancipou o capital e as formas de subsunção do trabalho.

A.T.: Como você avalia a mercadoria dentro do contexto atual, onde se vê um aumento do setor de serviços?

A.M.: Veja bem, a ideia da mercadoria significa que ela deve ter necessariamente um duplo caráter: um valor de uso e um valor de troca. Muitas vezes, nós temos o impulso a subjugar determinadas categorias como serviços e as mercadorias virtuais, como se elas não fossem mercadorias, como se não fossem produtivas, reduzindo a sua importância na dinâmica contemporânea de acumulação. Isso pode até ter seu fundamento, e é algo que se está discutindo, mas o fato é que a mercadoria não diz respeito a um aspecto físico , ela diz respeito à sua capacidade de atender as necessidades humanas das mais variadas espécies. A mercadoria produzida pela indústria, propriamente dita, permite que o resultado do trabalho possa ser separado daquele que trabalha. Enquanto nas esferas dos serviços, por exemplo num corte de cabelo: é difícil vender um corte de cabelo à distância, porque os efeitos dos serviço enquanto mercadoria, enquanto valor de uso, se esgota no ato daquele que trabalha. No ato do corte do cabelo a mercadoria já está vendida e paga, então o produto consumido se esgotou no ato da sua produção –, é uma produção de valorização mais recalcitrante, o que não significa que ela é incapaz de produzir valor.

A.T.: Você fala que antes de emancipar o trabalhador, as novas tecnologias emanciparam o capital. De que forma essas novas tecnologias se inserem no mundo do trabalho?

A.M.: No momento em que atrelamos tecnologias da informação, eu dissocio aquele trabalhador dos serviços da sua experiência local, da sua realidade imediata e posso transcender isso em escala global. Se tomamos por exemplo, o Call Center da Microsoft, vamos perceber que o consumidor provavelmente será atendido por um indiano e não necessariamente por um funcionário de sua matriz. A produção do serviço foi deslocalizada do seu local imediato para uma produção que é global. Esse é o primeiro aspecto a se observar sobre esse novo tipo de produção que é recalcitrante. Talvez por ser recalcitrante, ela expresse precisamente a logica contraditória de acumulação do capital que se apresenta. Isto é reflexo do que diversos autores têm apontado como uma crise estrutural do capital, uma dificuldade do capitalismo em se autodesenvolver após os 30 anos gloriosos do pós-guerra.

O que eu observo mediante as tecnologias da informação é que se de um lado, do ponto de vista da sua utilização imediata, do ponto de vista do indivíduo, ela representa um avanço no que toca o processo humano civilizatório, de outro lado ela é constrangida pela lógica da mercadoria, o próprio fato de se tornar mercadoria já restringe a sua plena potencialidade dentro daquilo que ela foi projetada. Como pensar então as relações entre essas novas mercadorias e as tecnologias da informação no sentido amplo? A produção material tradicional permanece acontecendo. Esse tipo de produção pautado em larga escala a partir do pós-guerra, em bens de consumo duráveis como: infraestrutura, automóveis e eletrodomésticos, que acompanham o Well-fair-state dos anos 1940 até os anos 1970, quando se dá a crise estrutural do capital não deixa de existir, a sua produção é transferida espacialmente.

Observamos isso com o grande crescimento do mercado de trabalho na China com salários extremamente achatados. A produção foi barateada. Há uma dificuldade de barganha daquele que trabalha, do trabalho realizado, do trabalho material. E não confundir trabalho material com tangível e intangível, porque mesmo o trabalho intangível, quando se efetiva pela internet, é algo material na medida em que se materializou. A internet coloca um elemento de dificuldade do capitalismo se reproduzir por meio do trabalho e por meio da produção dos valores de uso. Mas isso não significa que ele deixará de existir, ele se reproduzirá num patamar cada vez de maior crise, de maior precarização do trabalho e de cada vez mais avanços sobre as esferas do ser social.

A.T.: Você tocou um ponto que eu acho interessante adentrar, o trabalho precário. O trabalhador pode ser encarado como mais frágil dentro deste contexto?

A.M.: O trabalhador pouco importa ao capital. O que o capital está interessado não é necessariamente no trabalhador ou nas suas condições de vida. O que o trabalhador troca com o capital é a força de trabalho, mas o que o capital recebe em troca do trabalho, não é simplesmente força de trabalho, não é uma mercadoria como algodão, ferro, um insumo qualquer, porque a força de trabalho, diferente dos outros insumos, é uma mercadoria peculiarísima, ela é precisamente o motor, o mote do lucro capitalista. Ela tem uma dimensão muito própria. O trabalho é propriamente a produção de valor, sem trabalho não há produção de valor, mas como qualquer insumo, dentro de uma lógica que busca eficiência e redução de custos, o trabalho em igual medida será tomado como algo a ser reduzido. Muitas vezes não há como reduzir o preço do algodão, do ferro, ou dos outros insumos, mas a instância do trabalho, como é uma instância social, é precisamente a esfera privilegiada de ataques para redução dos custos.

O que se verifica, sobretudo nos países do capitalismo periférico a partir da crise estrutural do capital e dos avanços das políticas neoliberais, é uma constante precarização do trabalho, um trabalho cada vez mais parcializado, precarizado, multifuncional, hifenizado e feminilizado, não no sentido de se reconhecer as conquistas para as mulheres, mas de conseguir uma mão de obra mais barata, porque a forma de assalariamento no Brasil é também machista, ela remunera menos a mulher por uma mesma função desenvolvida.

A.T.: Como essa precarização do trabalho se expressa?

A.M.: Existem várias formas de precarização, como a questão dos bancos de horas e a questão de jornadas exaustivas. O horizonte que se abre para o mundo do trabalho, para além das ideologias que hoje se apresentam como fim do trabalho, ou do ócio produtivo, ou de um trabalho em que você deve amar, o que a se observa é que nunca se trabalhou tanto na história da humanidade, nunca se produziu tanto valor e nunca o trabalho foi tão degradado. Ao contrário das ideologias, ideias e discursos que hoje afirmam que estamos caminhando para uma emancipação do trabalho, nós podemos dizer que existem melhorias de algumas condições específicas e objetivas do trabalho, mas o trabalho no contexto geral continua sendo precarizado e não sofreu grandes alterações no sentido da sua emancipação.

Por exemplo, não se reduziu as jornadas de trabalho e não se reduziu a intensificação da produção. Pelo contrário, muitas vezes se fala desse trabalhador que deve ser gestor de si mesmo, independente, autoempreendedor, responsável pelos próprios desígnios… Mas o que nós observamos é que por meio da terceirização, da parcialização e da precarização, este trabalhador, autogestor do seu tempo, autogestor da sua empresa, na verdade é um trabalhador precário, com instabilidade. Uma vez dono de seu próprio corpo e largado à sua própria sorte, ele não consegue ter perspectivas de futuro, ele não consegue financiar uma casa porque não sabe se amanhã ele vai ter rendimento, ele não consegue tentarter um filho porque ele não sabe o que será do amanhã. O estado contingente dos trabalhadores é precisamente um estado de insegurança.

E isso não se resume apenas àquelas camadas de trabalhadores não escolarizados que ficaram à margem da educação formal, pelo contrário, hoje o que nós vemos é que diversos universitários, pessoas altamente graduadas, com pós-graduação, etc. buscam oportunidades no mercado de trabalho que em sua grande maioria não são atendidas em suas expectativas. Apesar de estarmos vivendo um momento relativamente privilegiado em termos de desemprego, do ponto de vista do trabalho estrutural ele não encontra essa segurança necessária.

A.T.: Partindo para as Jornadas de Junho, que marcaram a história do ano passado, a pluralidade foi uma característica marcante. Isso prejudicou ou ajudou o andamento das reivindicações?

A.M.: Toda reivindicação é legítima porque quem gosta de silêncio é ditadura. Quem gosta de democracia se sente bem no meio de barulho. Eu, particularmente me sinto bem no meio barulho que estamos inseridos. A questão é que não dá para generalizar as manifestações dentro de uma única perspectiva. Elas são plurais e muitas vez agregam questões também plurais. Não seguem uma única diretiva ou um comando central, elas estão decentralizadas.

De um lado nós temos reivindicações, que por mais que eu concorde ou discorde desta ou daquela perspectiva teórica, estão presentes. De outro lado, paradoxalmente no extremamente oposto, nós vemos um avanço do integralismo, sobretudo em São Paulo, de posições extremamente conservadoras. Eu tenho me perguntado o que tem a ver o Big Brother, a Raquel Sheherazade e os espancamentos, as justiças com as próprias mãos e etc… Eu fico me questionando se as pessoas que estão nas ruas sabem porque estão ali e o que elas realmente querem.

Todas as reivindicações por educação, contra a corrupção e a favor da saúde são legítimas. Todas elas são legítimas e afirmam uma realidade sofrível para o povo brasileiro que nós observamos, mas é preciso tomar cuidado. Cuidado no seguinte sentido: se não concordamos com tudo, da política econômica do Governo Federal atual, dos governos Estaduais e etc, também não podemos colocar na conta desses governos, de um ponto de vista imediatista, todo o crédito de 500 anos de opressão, 500 anos de falta de investimento para Educação, precarização da Saúde e etc. Eu colocaria na conta no Neoliberalismo. Em certa medida, podemos dizer que o governo federal atual representa um freio relativo ao neoliberalismo, apesar de não ser uma ruptura completa com ele.

A.T.: Em um dado momento, essas jornadas começam a levantar a pauta dos gastos excessivos com a Copa do Mundo. Essa pauta sobrevive até hoje e pode-se dizer que está trazendo a juventude às ruas novamente. Como você enxerga esse momento?

A.M.: O que eu sinto falta dos movimentos que se conglomeraram em torno da questão #NãoVaiTerCopa, falta de objetividade no sentido de proposições. Quer dizer, eu sou à favor da educação, mas o que eu proponho para a educação? Eu sou contra a precarização da Saúde e a favor de uma Saúde padrão Fifa, mas o que que eu estou propondo concretamente para a Saúde? Eu sou contra a corrupção, mas eu sou contra a corrupção porque eu quero desgastar o governo do PT, ou porque supostamente eu acredito que o Estado Democrático de Direito Representativo em si, como se ele fosse plenamente honesto, me representasse uma emancipação humana? A preocupação muitas vezes no que se refere à corrupção, é em um moralismo condenatório. Em sua contraposição, há um ufanismo bajulatório, que impede pontuar quais são as questões onde devemos avançar.

A minha preocupação é: Se todas as movimentações e reivindicações são válidas e legítimas, onde está o problema? Está no problema da formulação. Eu estou mais preocupado em desgastar determinados governos, seja do PT ou do PSDB, as forças hegemônicas que hoje comandam a política nacional, ou eu estou realmente preocupado em propor e realizar conquistas? Existe uma grande dificuldade dentre a diversa gama de manifestantes que se coloca dentro da questão do #ContraCopa em estabelecer metas, estabelecer reivindicações objetivas e propor as políticas para as quais os movimentos acreditam que representam uma política emancipatória ou minimamente progressista.

A.T.: Alguns dos setores organizados que participaram das jornadas de junho e que estão indo às ruas até hoje, estão fortalecendo a proposta da Reforma Política, argumentando que este é um dos problemas principais que devemos observar hoje. Como você avalia esse ponto de embate.

A.M.: Eu acho muito positivo e necessário uma reforma política. Na verdade é uma grande oportunidade que toda sociedade brasileira tem de debater, discutir, colocar em pauta e avançar em uma proposta de reforma política que dê conta das contradições que hoje nós observamos. Sobretudo se nós conseguirmos emancipar as eleições do ponto de vista do financiamento da campanha. Nós sabemos que existem cálculos para cada eleitor ao final das eleições. Eu penso que as eleições devam ser demandadas por propostas e pelo entendimento dessas diversas proposições, em termos de paridade e termos de igualdade e não por aquele partido X ou Y que tem maior capacidade de financiamento de campanha. Isso é precisamente permitir que o mercado domine a campanha eleitoral e não que as propostas sobrevaleçam sobre a propaganda, sobre a própria forma pela qual o processo eleitoral se faz.

De certo modo, a reforma política passa fortemente pelo processo eleitoral. Nós precisamos ver – agora na hora de retornar às bases diante das diversas formas de manifestações – que tipo de reforma política cada grupo quer. E isso é muito positivo porque esses momentos de entendimentos são onde as máscaras caem e nós começamos a entender com maior clareza o que cada grupo propõe.

Exemplo disso, saindo um pouco da reforma política é que: Apesar de no último discurso da presidente Dilma Rousseff, ela colocar como uma meta objetiva uma reforma política, eu questionaria: Porque ela já não foi feita? Porque ela já não foi feita no governo Lula, no segundo mandato Lula ou no momento da eleição da Dilma, momento aquele em que os governos eleitos têm mais força para levar à frente determinadas propostas?

A. T.: Vemos um discurso de maiores índices de empregabilidade sendo posto pra nossa sociedade. Isso quer dizer que estamos avançando na realidade deste trabalhador?

A.M.:Veja bem, no discurso do Primeiro de Maio da presidente Dilma Rousseff, ela retomou a questão do trabalho com muita ênfase. Mas isso se deu depois que seus concorrentes Aécio e Campos, em plena força sindical, comentaram as possibilidades de flexibilização das leis trabalhistas em alguns setores como do turismo. Isto é um prato cheio para se colocar a questão da defesa dos direitos dos trabalhadores.

Se de fato, hoje, nós podemos observar o Brasil do ponto de vista da questão da empregabilidade, temos uma das menores taxas de desemprego do mundo, taxas que se compararmos às da Europa e de países do capitalismo central, estão num patamar razoável, uma outra coisa não se discute, que pouco se fez pela estrutura do trabalho e do trabalhador. Se discute os ganhos de renda do trabalhador, o aumento e poder de compra do salário mínimo, mas não se discute a redução da jornada de trabalho com manutenção de salários. Isto seria de fato um grande avanço no sentido da emancipação do trabalhador, de seu tempo livre. São essas distintas lógicas e dentro desta complexidade que eu penso que devemos tratar a reforma política. Não apenas temos que fazer uma reforma política, mas pensar que reforma política queremos. Precisamos conseguir fazer com que isso, para além das propostas dadas pela sociedade civil, ou apresentadas pelos próprios governos ou parlamentares que propõem a reforma, como isso se dará no âmbito parlamentar, no âmbito das discussões internas. Este lugar é aonde acontecem as barganhas, o lobby e que é onde, muitas vezes vezes, propostas altamente emancipadoras se tornam verdadeiras quimeras, fazendo muitas vezes um desserviço, ao contrário das suas proposições iniciais.

Confira a segunda parte da entrevista