Arakin Monteiro: “A classe trabalhadora é classe quando se afirma como tal” (Parte 2)

Arakin Monteiro é Doutor, mestre e graduado em Ciências Sociais pela UNESP/Marília, com foco nas Sociologias do Trabalho, da Cultura e do Ciberespaço

Na última quinta-feira, a Revista Gambiarra publicou a primeira parte da entrevista que foi feita com o Professor Doutor Arakin Monteiro. Com seus estudos voltados para a realidade do trabalhador e as novas tecnologias, seria difícil não adentrar novamente na discussão das Jornadas de Junho. Dessa vez, Arakin fala sobre o legado que as manifestações do ano passado deixaram para a esquerda brasileira e da importância de aprender com elas, as novas formas de se fazer política.

Além dessa discussão, a conversa passou também por um olhar para as novas formas de fazer cinema, que estão emergindo no Brasil. Para Arakin, “na medida em que a gente rompe com o monopólio da distribuição comercial, paralelamente a gente rompe com a lógica do discurso único”. Confira a entrevista:

André Thibes: Observando essa insegurança e instabilidade que está posta para o trabalhador, como resistir?

Arakin Monteiro: Essa é uma boa pergunta porque é uma pergunta sem uma resposta única. O que nós observamos, mais do que uma reestruturação produtiva é, como observa o professor Giovanni Alves,uma captura da subjetividade daquele trabalha. Aquele que antes se enxergava com uma solidariedade de classe ao lado daquele colega de trabalho, hoje, ao contrário, o que nós observamos é um trabalhador que não se sente trabalhador, que se sente colaborador. Ele se sente parte do time, é como se ele fosse um sócio da empresa capitalista. E isso o coloca numa posição muito difícil, porque a classe trabalhadora em muitos sentidos é classe enquanto se afirma como classe. Ele é trabalhador pela posição que ocupa na dinâmica do capital, mas só é classe quando está junto e se afirma politicamente. E é a classe que consegue avançar e se impor.

A fragmentação das cadeias produtivas deixa cada vez mais difícil organizar esses trabalhadores enquanto classe. E isso eu falo precisamente de organizar sindicalmente. Há um grande desinteresse da base dos sindicatos pela estrutura política que os comanda. Eu não quero generalizar os sindicatos, existem muitos deles, muitas formas de se lidar com a classe trabalhadora. Porém, existe o que viria a se chamar de crise do sindicalismo, uma vez que as cadeias estão fragmentadas, o sindicalismo tem cada vez menos poder de barganha frente ao capital, mas não perde de modo algum sua importância e centralidade.

A.T.: Como você avalia as principais centrais sindicais em que os trabalhadores se organizam hoje?

A.M.: Existe uma crítica muito grande àqueles sindicatos que estavam sob o guarda-chuva da Central Única dos Trabalhadores (CUT), na medida em que o Partido dos Trabalhadores (PT) assume o governo. Diz-se que a CUT se torna menos combativa nesse momento. Ainda durante o primeiro governo Lula, nós temos a formação e consolidação daCoordenação Nacional de Lutas – CONLUTAS, como central sindical combativaque faz um contraponto com relação à CUT. E temos a força sindical dentro do Partido Democrático Trabalhista (PDT), que continua com uma posição considerada muitas vezes subserviente em diversas esferas do sindicalismo.

Existem muitos discursos e muitas formas de se organizar a classe trabalhadora e elas não estão dissociadas da disputa eleitoral, disputa parlamentar e de política econômica. Precisamente, por boa parte do sindicalismo brasileiro estar hoje atrelado à CUT, se tem uma questão política que é muito complexa. Onde eu vejo o problema, não é precisamente em que a CUT ser originaria da base que conforma o governo, mas da sua falta de autonomia na hora de cumprir o seu papel de reivindicar e se posicionar radicalmente em favor da classe trabalhadora. Radicalmente no sentido lattu do termo, radicalmente de entender que a sua principal função de existência é defender o trabalhador, independente de como essas organizações sindicais se atrelam ou não a este ou aquele governo.

A.T.: Olhando um pouco para os últimos períodos de lutas que enfrentamos, olhando para o ano passado, para as Jornadas de Junho, é possível ver esse período enquanto um marco para as formas de fazer política?

A.M.: É um grande momento para repensar as formas de se fazer política. Na pergunta anterior, você me coloca sobre as formas de organização. Eu diria que os sindicatos têm muito a aprender com as manifestações de junho para cá. Geralmente os sindicatos são estruturas engessadas. Eu acho que eles têm muito a aprender. E nós, enquanto sociedade, enquanto acadêmicos, também temos muito a aprender com as manifestações de junho.

Eu não diria que nós temos momentos de revoluções, nós temos momentos de revoltas. Eu, particularmente, participei ativamente do terceiro ato contra o aumento da passagem em São Paulo, que originou as grandes manifestações. Eu estava como fotógrafo e pesquisador. Apanhei, fui agredido pela polícia, espancado e tive que fazer tomografia. No quarto, quinto e sexto ato eu também estava lá, e a partir daí virou mais ou menos uma micareta que tentou ser apropriada pela direita. Eu continuo acompanhando as manifestações de lá até então. O que eu não acho que seja possível fazer é uma generalização daquilo que veio a ser considerado as Jornadas de Junho.

A.T.: Enquanto ativista que participou ativamente de toda essa mobilização em São Paulo, você faria uma avaliação das heranças que junho trouxe para a esquerda?

A.M.: O que eu percebo hoje, e posso dizer com muita propriedade, porque estive nas manifestações e porque hoje coordeno uma turma de Fundamentos da Ciência Política – e eu tenho alunos que são feministas, alunos do movimento LGBTT, alunos que são evangélicos, alunos que são do Black Bloc, alunos que são dos Anonymous, e é muito gratificante poder estar nesse turbilhão. O que eu penso com relação às manifestações é que qualquer tentativa de generalização delas em um único contexto vai estar fadada ao fracasso.

Por exemplo, nós tínhamos uma reivindicação muito pontual que era impedir do aumento da passagem. A partir do quinto e do sexto ato, ocorreu uma espécie de fascistização das manifestações, sobretudo naquele momento do “O Gigante Acordou”. A direita tentou se apropriar do movimento por uma reivindicação legítima que nós poderíamos atribuir à esquerda, para tentar desgastar o Governo Federal. Só que, por não ser um movimento orgânico, ele perdeu sua força.

Contraditoriamente, estavam surgindo duas outras forças. Uma, a força do integralismo mais radical, com feições fascistas e protonazistas. E a outra posição é uma vertente anarquista, ainda que um anarquismo em outros patamares, dado pelo movimento dos Black Blocs. Do ponto de vista da mídia, eles foram tratados como terroristas, bandoleiros, etc.

A.T.: Mudando de assunto, você também pesquisa a área das novas formas de fazer cinema. Vamos falar um pouco sobre isso. Como você observa a periferia da indústria cinematográfica e a galera que produz sem as possibilidades de produzir? As tecnologias influenciam aí também?

A.M.: Antigamente, quando pensávamos em fazer cinema, era uma coisa muito utópica porque as pessoas não tinham o meio de produção necessário para se fazer aquilo. Porém, há uma democratização do computador pessoal, com o acesso às diversas produções culturais por meio da internet, e também a inserção de novas formas de licenciamento, como Creative Commons, Criação Compartilhada, enfim… Existem diversas licenças, diversas formas de produzir e distribuir colaborativamente. Isso não significa, em absoluto, um abandono das possibilidades de se vender, de se criar novas mercadorias, etc. Só que nós estamos em uma lógica de produção e distribuição que tende a ser mais democrática.

O desafio que se coloca para os novos produtores e para os novos cineastas é exatamente romper a barreira da centralização, a barreira de entrada, as formas de distribuição. E olha que contraditório: antigamente a grande dificuldade para se fazer cinema era se fazer cinema. Eu não estou dizendo que isso também seja barato para se conseguir uma determinada qualidade técnica de edição, mas o que eu quero dizer é que hoje é relativamente simples demonstrar uma realidade.

Há um leque muito grande que se abriu para a produção de documentários. Hoje, qualquer um com uma câmera Full HD, com os programas corretos, com um computador que lhe permita editar, consegue fazer coisas bastante avançadas.

A.T.: Porque é tão difícil para este novo cineasta distribuir a sua obra?

A.M.: A questão é na hora de chegar às salas de cinema. Nós temos de um lado todas as possibilidades de distribuição dadas pela internet, pelo ciberespaço e pelo livre compartilhamento. Mas, de outro lado, isso não abole a necessidade de entrar nas salas de cinema. Isso, para romper com uma lógica de cinema mercadológico. É preciso, sobretudo, que se negocie, que se criem associações, e que se consiga inserção nas salas de cinema.

Talvez seja uma visão muito medíocre, de achar que a gente depende necessariamente das salas de cinema. Porém, por mais que muitas vezes algumas obras estejam disponíveis para livre acesso, para livre compartilhamento, inclusive para remix, para se pegar aquela obra, para se partir e criar outras obras dela derivadas, por mais que hoje isso esteja avante, não é garantia de que ele chegará necessariamente no público consumidor ao qual se pretende alvo.

Essas são as grandes contradições do fazer cinema no Brasil e um cinema sobretudo periférico, um cinema que tem maior dificuldade em conseguir financiamento, distribuidores e expansão.

A.T.: E como você enxerga a questão do conteúdo? O fato de a produção do cinema estar sendo democratizada melhora ou não melhora qualitativamente a realidade do cinema?

A.M.: Eu penso o seguinte: na medida em que a gente rompe com o monopólio da distribuição comercial, paralelamente a gente rompe com a lógica do discurso único. Isso possibilita que outras visões, outros experimentos, e inclusive outras estéticas cinematográficas sejam testadas, experimentadas e consequentemente, apreciadas. Isso é muito positivo. Apesar disso, não se pode acreditar ingenuamente que nós chegamos a um patamar em que não temos aonde avançar. Pelo contrário, existe um mundo a ser conquistado em termos de difusão de ideias e de difusão da obra de arte.

Essa abertura cria espaço para diversas formas de comunicação. Existem hoje grandes diretores indígenas, grandes produções indígenas que não tem aquele olhar “ocidental”. Eles têm o olhar que está preocupado com as suas questões, com a sua realidade, com a sua localidade e discutem essas questões, inclusive se colocando em choque com o outro. São diversas possibilidades que se abrem e eu olho de forma muito positiva – sem deixar de observar as suas limitações.