Allan de Kard: “O pior para uma obra de arte é o silêncio, o descaso”

A Revista Gambiarra entrevistou o artista plástico que possui mais de 400 telas e cerca de 15 esculturas espalhadas pela cidade de Vitória da Conquista

Allan de Kard nasceu em Itapetinga, mas tornou-se cidadão conquistense. Desde a infância se relaciona com a arte através de suas pinturas e esculturas, que se manifesta buscando a fusão dos quatro grandes saberes humanos: o saber científico, o religioso, o filosófico e o artístico.

Allan possui mais de 400 telas, mas a evidência maior de sua arte estão nas esculturas, muitas delas espalhadas por Vitória da Conquista. Uma das obras que mais chamam atenção e causam uma certo estranhamento é um ovo instalado em cima de um prédio, que pode ser visto do Viaduto do Guarani.

O artista tem trabalhos reconhecidos em todo o Brasil, a exemplo do monumento em homenagem a Allan Kardec, codificador da Doutrina Espírita, inaugurado em dezembro de 2014. Allan de Kard está construindo um grande museu a céu aberto na zona oeste da cidade, a Fundação Museu Allan de Kard, na estrada Conquista-Anagé.

Ana Paula Marques: Como você se aproximou da arte?

Allan de Kard: Na verdade eu faço arte desde a minha infância. Desde pequeno eu nunca me contentava com meus brinquedos fabricados, tinha sempre que fazer os meus próprios brinquedos, jogos, eu era muito criativo. Tanto que meu primeiro trabalho foi aos 8 anos de idade, quando fiz um baralho. Esse baralho eu transformei num trabalho chamado “Fragmentos da Infância”, que foi aprovado no segundo salão de artes do Museu de Artes da Bahia, o MAM, em 1995. Foi um feito interessante, pois na história do MAM, apenas três artistas conquistenses tiveram obras expostas. Foi a partir daí que eu resolvi trabalhar com arte contemporânea. Trabalho tanto com pinturas, como também com esculturas. A evidência maior da minha arte são as esculturas, embora o número de telas supera as esculturas. Eu tenho cerca de 450 telas.

AP: Qual é a proposta principal que você pretende passar com as escuturas gigantes, instaladas pela cidade?

AK: Com minhas esculturas gigantes eu tenho a proposta de ocupar o espaço público com a arte, pois no meu entendimento a arte precisa estar para o público, como por exemplo o ovo que está instalado próximo ao Viadutodo Guarani e a Esplanada das Esculturas, um espaço que estamos construindo na zona oeste. Lá eu tenho como objetivo criar a Fundação Museu de Kard, onde esses trabalhos estarão em exposição. A Fundação é inspirada no Instituto Inhotim, de Minas Gerais, um espaço grande que possui trabalhos expostos. O espaço é um bairro planejado, com uma área de cerca de 4 milhões de metros quadrados, onde eu venho ocupando com várias esculturas. A primeira delas foi o Calendário de Kard, feito em parceria com o meu irmão Alex. É o maior calendário do mundo, com 1 quilômetro e 600 metros de esculturas, uma metáfora sobre o tempo, com 366 esculturas, uma para cada dia do ano. São várias reflexões que podemos fazer sobre o tempo, matéria prima mais importante e perecível que a vida nos oferece.

AP: Uma de suas obras mais chamativas é o ovo instalado em cima de um prédio, próximo ao Viaduto do Guarani. O que ele significa?

AK: O ovo faz parte da série Gênesis. São 3 ovos: Gênesis 1, que fica no Centro Industrial de Conquista, Gênesis 2 que está no jardim da minha casa e o Gênesis 3, localizado em cima do prédio. O ovo é uma metáfora sobre a origem da vida para responder uma série de questões: quem vem primeiro, o ovo ou galinha? A ave nada mais é do que um artifício do qual o ovo se utiliza para produzir outro ovo. Do mais simples para o mais complexo.

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As obras Equilibrium e Gênesis 2/ Foto: Rafael Flores

AP: Quantas esculturas de sua autoria existem hoje pela cidade?

AK: Na cidade hoje existem cerca de 15 esculturas. Eu estou com um projeto de fazer uma exposição de grandes esculturas na Olívia Flores. Eu estou trabalhando com a Prefeitura, já que é uma intervenção urbana, é preciso desse consentimento para colocar as esculturas no canteiro central.

AP: Como as suas obras são financiadas?

AK: Costumo dizer que eu tenho a felicidade de ser ao mesmo tempo o mecenas e o artista, pois todo o meu trabalho é financiado por mim mesmo. Agora ele já está rendendo algumas encomendas de instituições, amigos, entre outros. Já surgiram algumas propostas nessa área de grandes esculturas que não deixa de ser uma forma de financiar os meus trabalhos.

AP: Como você recebe as críticas que envolvem os seus trabalhos?

AK: Positivamente. A função da arte é despertar visões internas de cada pessoa, então cada pessoa tem um olhar sobre uma obra de arte, sobretudo quando ela foge dos padrões da dita normalidade. Ela suscita isso e cada um vê com os olhos que têm, fala com os elementos internos que têm. Qualquer posicionamento sobre uma obra de arte é positivo, o pior para uma obra de arte é o silêncio, o descaso. A minha intenção é provocativa, de trazer reflexões e buscar essa análise do ponto de vista do observador.

Considero uma proposta inovadora a busca por aliar os quatro grandes saberes humanos: o saber científico, o religioso, o filosófico e o artístico. Todos esses saberes, ao longo da história podemos observar que possui um certo exclusivismo, quando não quer dominar um outro saber. A minha proposta é fazer essa fusão dos saberes, por isso uso física nos meus trabalhos, o equilíbrio, tenho um corrente também religiosa e filosófica através das metáforas, lendas e mitos para a manifestação da arte.

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O Kaypê, obra que está instalada no espaço do Museu de Kard, é uma referência aos índios e bandeirantes e ao mito de Kaypê, índio que viveu no planalto da Conquista/ Foto: Rafael Flores

AP: Você recebeu recentemente a Medalha Glauber Rocha, homenagem da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista que marca o Dia Municipal da Cultura. O que isto representa para você?

AK: Representa muito. É o reconhecimento de um trabalho. A gente está em Conquista, um celeiro de artistas de todos os âmbitos. Esse prêmio é cultural e envolve a música, a literatura, as artes plásticas, dentre outros. Então, dentre tantos outros nomes grandiosos que tem por aí, eu ser indicado na primeira medalha é de um valor inestimável. Não que a gente busque ter isso como meta, mas como consequência, e como consequência é algo muito positivo. Me deixou muito feliz e estimulado para dar continuidade ao trabalho.

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O Kaypê visto de dentro/ Foto: Rafael Flores