Além do Look: Moda e Gênero, uma questão a ser discutida

Se fazem roupas, acessórios, calçados para o sexo feminino e masculino, se fazem “tamanhos femininos” e “tamanhos masculinos”. Será que ninguém nunca pensou nas pessoas que nasceram em um corpo que não condiz com os seus gostos?

Por Maria Flores*

Foto: Yáskara Fabi

A moda é excludente. Ouvi isso de uma colega enquanto pegava depoimentos para outra matéria. Durante muito tempo fiquei com essa frase na cabeça, sem entender direito o que isso significava. Porém, há pouco tempo, comecei a me interessar e me informar mais acerca das pessoas transexuais, transgêneros e travestis, e como tudo que passa na minha cabeça acaba se ligando à moda, encontrei um sentido para a frase da minha colega.

A moda é excludente, é sim. Se fazem roupas, acessórios, calçados para o sexo feminino e masculino, se fazem “tamanhos femininos” e “tamanhos masculinos”. Será que ninguém nunca pensou nas pessoas que nasceram em um corpo que não condiz com os seus gostos? Será que ninguém pensa em como é ser mulher, mas ter nascido num corpo masculino (ou vice-versa) e por isso não conseguir comprar roupas que condizem com você? Deve ser no mínimo constrangedor, para não dizer desesperador.

No auge da minha confusão mental, sem saber como isso poderia ser resolvido e como eu poderia um dia fazer algo pra melhorar essa situação, surgiu a Selfridges com uma atitude maravilhosa. A luxuosa loja de departamento de Londres declarou no dia 12 de março de 2015, que iria lançar um gênero neutro. A loja informou ao jornal The Times, que o departamento chamado “Agender” visa a retirada de estereótipos e limitações a seus clientes na hora da compra. Disse ainda que será um espaço em que as roupas não estarão mais embutidas em valores de gênero, possibilitando que a moda sirva como pura expressão do indivíduo.

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Definições da palavra Agender em inglês, tradução livre para: sem gênero; de gênero neutro; aquele que flutuaentre as identidade de gênero; terceiro gênero ou aqueles que não definem um título para seu gênero.

Na semana de moda de Milão, tivemos também surpresas em relação a esse assunto. A grife italiana Gucci trabalhou o tema androginia na sua passarela e a Prada apresentou a coleção masculina junto com a feminina, eliminando a separação de gêneros no desfile.

Ainda há muito o que se fazer para que a moda deixe de ser excludente, tanto nesse aspecto como em tantos outros, porém tudo que se faz já é um avanço. A Selfridges teve a coragem de dar um passo muito grande e esperamos que seja um exemplo para tantas outras lojas.

Ícone de feminilidade, a saia é considerada uma das peças mais marcantes do vestuário feminino. A sociedade contemporânea espera que mulheres a usem, no entanto, não é isso que acontece nos encontros de estudantes de Comunicação. Após um participante do Congresso Brasileiro de Estudantes de Comunicação Social (Cobrecos) ter sofrido preconceito por usar a vestimenta, foi lançado o Movimento Pró-Saia. Idealizado pela Executiva Nacional dos estudantes de Comunicação Social (Enecos), visa o apoio as pessoas que querem usar saia, independente de se considerar homem ou mulher. Ande pelos corredores dos encontros de Comunicação Social e sempre verá homens vestindo saia.

Liberdade de gênero na moda, é isso que importa.

*Maria Flores é estudante de Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB).