1ª Mostra Cênica CazAzul movimenta cena teatral de Conquista

Érika Camargo presenciou a iniciativa e traz uma crítica da segunda noite de espetáculos

Por Érika Camargo/ Foto: Allana Katiussya

Nos dias 20 e 21, terça e quarta-feira, a CazAzul Teatro Escola realizou a 1ª Mostra Cênica CazAzul, no Teatro Carlos Jehovah. A mostra encerrou o semestre das turmas de iniciação teatral, adulto e juvenil, e da oficina Awêry Vivências Cênicas de improvisação.

A programação consistiu em, no primeiro dia, apresentação do espetáculo “Depósito de Alegrias Esquecidas”, adaptação e direção de Vicente di Paulo e direção musical de Ana Barroso e, no segundo, apresentação de “Traga-me maçãs verdes”, espetáculo adaptado e dirigido por Joadson Prado. Ambas as noites foram encerradas pela Mostra Awêry Vivências Cênicas, oficina de improvisação.

Traga-me maçãs verdes: espetáculo retrata os encontros e desencontros do amor

Baseada em textos de Caio Fernando Abreu, peça traz visão pessimista das relações amorosas

“…só queria pedir uma coisa, acho que não é difícil, é só isso, uma coisa bem simples: quando você voltar outra vez veja se você me traz uma maçã bem verde, a mais verde que você encontrar, uma maçã que leve tanto tempo para apodrecer que quando você voltar outra vez ela ainda nem tenha amadurecido direito”. (Carta para além do muro – Caio Fernando Abreu)

No segundo dia da 1ª Mostra Cênica CazAzul, que aconteceu no Teatro Carlos Jehovah, o espetáculo Traga-me maçãs verdes foi encenada pela turma de adultos do curso, sob direção e adaptação de Joadson Prado. A peça é uma adaptação de três textos do escritor Caio Fernando Abreu: Apenas uma maçã, Amor e Carta para além do muro, sobretudo esse último.

O texto aborda o relacionamento amoroso em sua face de busca e desencontro, o que o diretor coloca no palco retratando cenas contemporâneas carregadas de subjetividade. Dentre as citações de Caio Fernando, o diretor lança mão de outras referências para construir o seu discurso, que é sobretudo cínico e pessimista.

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“Carlos, sossegue, o amor é isso que você está vendo: hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será”, o trecho da poesia Não se mate de Carlos Drummond se esforça por tranquilizar os desassossegos do amor, escrito em um quadro negro que pende sobre a cabeça dos atores.

Elementos cênicos representam as idas e vindas do que Vinícius de Moraes chamou de “infinito labirinto de desenganos amorosos”: molduras vazias e malas de mão que os intérpretes incessantemente levam de um lado ao outro. Enquanto isso, a trilha sonora francesa alenta o duro discurso proposto pelo diretor, com canções apaixonadas de Yann Tiersen (Lé moulin), Edith Piáf (La vie en rose) e Jacques Brel (Ne me quitte pas).

Prado, que assina direção e adaptação da peça, conta que o processo de construção dramatúrgica começou a partir de jogos teatrais e de composição e que a elaboração dos personagens foi feita livremente pelos seus intérpretes, editadas posteriormente pelo diretor. Disso, resultou que a peça foi se desenrolando e revelando aos poucos. “Descobrimos, eu e os intérpretes, que estávamos falando sobre relações e, principalmente, encontros e despedidas. É um espetáculo de cenas fragmentadas, mas sentimentalmente relacionadas umas com a outra. Resolvi deixas as coisas no ar e não as resolver”, conta.

A arte teatral e o desenvolvimento do potencial humano

A 1ª Mostra Cênica foi realizada pela CazAzul com o intuito de encerrar e trazer à público o resultado do primeiro semestre de teatro das turmas iniciantes, infantil e adulto. Assim, os atores que encenaram as peças nessas duas noites subiam ao palco pela primeira vez.

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Flagrei Tarsila Ghirello – quinze anos, pontas do cabelo tingidas de cor-de-rosa, piercing no septo, espaço entre os dentes da frente –, uma das atrizes de Traga-me maçãs verdes, comendo a maçã verde da peça num gesto de sincera espontaneidade. Quando pedi para entrevistá-la, aceitou com disposição juvenil, e falou comigo durante curtos cinco minutos, mas com uma paixão que foi suficiente para encher o Teatro Carlos Jehovah, fazer brilhar os seus grandes olhos expressivos e causar comoção a quem escutava.

“Eu sempre gostei muito de assistir filme, sentia que ia para outro mundo, então pensei que talvez no teatro pudesse encontrar a mesma satisfação. Tive a oportunidade de fazer uma oficina quando Drica [Adriana Amorim], foi à minha escola.

“A primeira oficina que fiz foi de palhaço, que é uma coisa maravilhosa, porque consiste em errar, o que não nos é permitido no dia a dia. Na primeira aula já me encantei. Depois, comecei o teatro da CazAzul, o que está sendo uma experiência muito boa, porque o teatro me dá a oportunidade de sentir mais. Desde que entrei, eu tenho uma percepção mais clara de certas coisas. Consigo perceber melhor como o outro se sente, parece que tudo cresce, os sentidos começam a se apurar”.

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Adriana Amorim, conselheira artístico-pedagógica da CazAzul, também acredita que o teatro possa desenvolver esse potencial humano. “O teatro tem uma importância social e humana incrível, porque ensina a viver no coletivo. Por meio dele, você conhece a si e aprende a ouvir o outro”.

Ela conta que além do gratificante retorno da apresentação, que proporciona “uma experiência social muito forte” para além da “experiência artística, que por si só já é contundente”, a socialização do processo pedagógico do teatro, através das performances, também pode fomentar o interesse pelo teatro. “Quando termina a apresentação fica uma loucura, muitas pessoas da plateia demonstram interesse por subir ao palco, pelas próximas oficinas e pela escola de teatro”.

A noite se encerrou, como na noite anterior, com a Mostra Awêry Vivências Cênicas de improvisação, com brincadeiras e jogos teatrais, que descontraiu a plateia e a levou também ao centro do palco.

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